MARÇO – 2014

Conheça o autor do primeiro livro queimado durante a ditadura

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Heitor Humberto de Andrade é o poeta que ganhou a forma de Brasília e carrega na biografia a peculiaridade de ser o autor do primeiro livro queimado durante o período de repressão da ditadura militar. Segundo o cineasta J. Santos, a capital assumiu os versos apocalípticos do artista. Ele foi tema do documentário Heitor: o poeta da revolução, assinado pelo diretor baiano.
Primo do cineasta Glauber Rocha, Heitor sempre esteve muito ligado à linguagem cinematográfica, o que chamou a atenção de J. Santos. “A relação que me une a Heitor é o cinema. Conversando sobre questões da vida, ele contou a história do livro queimado. Então, resolvi fazer um filme e contar isso para o mundo.”
A comprovação veio em depoimento de Germano Machado, diretor da Imprensa Nacional da Bahia à época, que conseguiu salvar 100 exemplares do livro. “Com esse filme, fiz um tributo ao Heitor e não deixei passar em branco”, diz. O cineasta conta que procurou fazer crítica à política atual, e Heitor foi usado como instrumento para tal finalidade. “Usei o Heitor profético para criticar o que está sendo feito hoje. O Germano, sem querer, o colocou à prova. O tempo mostrou que ele não errou em nada do que diz. ”
A obra em questão, Corpos de concreto, seria lançada no dia 1º de abril de 1964. “Eles entraram na Imprensa Nacional da Bahia e queimaram o livro. Germano salvou alguns exemplares e enviou para mim, em Campinas”, conta. Os poemas de Corpos de concreto seriam incorporados, mais tarde, ao Matemática do poema 3 x 1, em 1978.

(Fonte: CorreioWeb)

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Paul Theroux lança no Brasil ‘O rio inferior’

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O escritor americano Paul Theroux, famoso por seus romances de viagem, se lembra até hoje com carinho do período em que foi professor voluntário no Malawi durante quatro anos. Aquela vivência, que aconteceu há 50 anos e foi fruto de sua vontade de fazer algo “positivo e pacífico” depois da Guerra do Vietnã, marcou para sempre sua literatura. Agora, os ecos dessa experiência surgem em seu novo romance, “O rio inferior” (Objetiva), que acaba de chegar às livrarias do país e marca um retorno da ficção de Theroux ao continente africano depois de mais de dez anos.
O romancista chegou a visitar, décadas depois, a escola onde ensinou, mas viu que ela “não tinha envelhecido bem”. Ao tentar deixar o local, foi impedido por dias de partir pelos moradores, numa experiência que descreve como “assustadora”. É o mesmo que acontece com Ellis Hock, protagonista do novo livro. Levando uma vida medíocre e em crise familiar, ele resolve voltar para o Malawi, onde foi voluntário quando jovem. Quando percebe que o lugar ficou decadente e decide ir embora, é impedido pelos locais, que estão de olho em seu dinheiro.
— Meu personagem quer voltar a um local onde foi feliz e pode ser feliz de novo. Mas é um erro, porque é óbvio que ele vai se desapontar — diz Theroux. — A motivação do protagonista para ir à África é comum: a ideia de que o viajante pode encontrar algo melhor longe de casa.
“O viajante deve ser otimista”
Theroux, que nasceu em uma casa com sete irmãos e começou a perambular pelo mundo a fim de “fugir da família”, nega que o romance traga uma visão pessimista do ato de viajar. Para ele, uma viagem é feita de duas metades: a busca de um destino e a fuga de algo.
— O viajante precisa ser otimista. É preciso acreditar que algo interessante existe no fim da estrada. E, sendo sincero, não sabemos quem somos até sairmos de casa — afirma o autor.
No novo livro, o escritor americano também se debruça sobre uma África diferente da que conheceu jovem, lá nos anos 1960. Na primeira vez em que o protagonista visita o local, por exemplo, o Malawi lutava por sua independência, o que enchia seus habitantes de esperança. Depois de governos autoritários e corruptos, diz Theroux, eles ficaram mais cínicos — e seu protagonista é uma vítima involuntária desse processo.
— Acho que essa história mostra um lado sombrio da natureza humana. E talvez o lado negro da exploração mútua entre as pessoas — afirma o autor.
É bom dizer: quando Paul Theroux fala de viagem, ele não quer dizer férias. Para o escritor americano, os dois são opostos. A viagem é “difícil, lenta, dolorosa”; as férias são sempre “alegres, prazerosas, confortáveis”.
— A viagem é um teste de caráter, autossuficiência e capacidade de adaptação. E, no fim das contas, deveria ser uma chance de fazer amigos. As férias são um teste de dinheiro, já que, em sua maioria, são caras. Mas viajar à moda antiga não deveria ser caro, e sim iluminador — diz Theroux.
O que ler nas viagens
Para ele, o bom livro de viagem mostra os limites da resistência humana.
— É a velha história: ir para longe de casa, ver dragões e selvagens e voltar para contar. Todo bom livro de viagem traz essa busca pelo novo, algo mais fácil de ler do que de viver — diz o escritor, que nos últimos anos tem aproveitado para conhecer o Sul dos EUA.
Um dos maiores romancistas do gênero do mundo, porém, não recomenda ler livros do tipo enquanto se cruzam países. Para Theroux é bom buscar histórias que nada tenham a ver com o local que se visita, a fim de partir em outra viagem, desta vez na imaginação.

(Fonte: O Globo)

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Obra de Georges Simenon começa a ser reeditada em maio

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A vasta obra do escritor belga Georges Simenon (1903-1989) vai ganhar roupa nova em maio, quando começará a reedição de mais de 300 títulos, agora sob a chancela da Companhia das Letras. A editora, aliás, promete um lançamento memorável com a vinda do filho do escritor, Jean, que participará de eventos em cidades como São Paulo e Porto Alegre, onde falará sobre o trabalho do pai.
Conhecido pela obra policial, especialmente os livros do inspetor Maigret, Simenon foi um autor de extraordinária fecundidade, deixando 192 romances, 158 novelas, além de obras autobiográficas e numerosos artigos e reportagens assinados com seu nome (é notória uma análise que fez da obra do cineasta Federico Fellini), além de mais de 176 romances, dezenas de novelas, contos e artigos assinados sob 27 pseudônimos diferentes.
Herbert Lewis em alta
O escritor norte-americano Herbert Clyde Lewis (1909-1950) era tão popular na época da Segunda Guerra que o governo norte-americano enviava a seus soldados cópias de seu romance Gentlemen Overboard (1937), sobre um agente da Bolsa de Nova York, de hábitos regulares, que empreende uma viagem a Honolulu e cai do navio, conduzido à dúvida se alguém notou sua ausência. É Sartre encontrando Woody Allen nesse esplêndido livro agora redescoberto.
De olho nos menores
A Nova Conceito está de olho agora em leitores de 8 a 12 anos e, para isso, lança um novo selo, o #irado. Os primeiros títulos são Boneca de Ossos, de Holly Black (tiragem de 30 mil exemplares), em abril, e Caçadores de Tesouro, de James Patterson. Será a oportunidade de se conhecer uma nova faceta de Patterson, popular por suas séries de suspense.
On the road again
O poeta beat norte-americano Lawrence Ferlinghetti, fundador da mítica livraria City Lights e um dos grandes da geração beat, vendeu os direitos de seus diários de viagem para a W.W. Norton. Ferlinghetti, que editou seus amigos beats e foi processado por obscenidade ao publicar o livro de poemas Uivo, de Allen Ginsberg, escolheu como título de seu diário Writing Across the Landscape: Travels Journals (1953-2013). O livro será publicado em setembro de 2015.
NY sem livrarias
Não é só São Paulo que sofre com a alta dos aluguéis de lojas comerciais. Nova York tem testemunhado o fechamento de grandes e tradicionais livrarias, motivado pelos preços estratosféricos das locações. Recentemente, a Rizzolli, na Rua 57, foi comunicada por seu locador de que o prédio que ocupa será demolido. Outras grandes seguem o caminho de livrarias independentes como a Coliseum. As vendas caem, mas os aluguéis sobem em NY, podendo chegar a US$ 40 mil por mês.
Narrativas curtas
A editora digital e-galáxia estreia novo selo, Formas Breves, com a publicação do conto Averrós, de José Luiz Passos, prêmio Portugal Telecom de 2013. Dedicado à publicação de contos, o selo vai lançar um novo e-book por semana. Entre os autores estão Marcelino Freire e Nuno Ramos.

(Fonte: O Estadão)

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John Wayne ganha nova biografia nos EUA

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Ele era um herói forte e autêntico, às vezes cabeçudo, mas consagrado à justiça e capaz de ternura e sacrifício; uma figura solitária, convocada para defender a propriedade ou resgatar a mocinha, mas, no fim, com frequência exilado no fim da civilização pós-fronteira, que já não precisava de seu tipo durão. Quer fosse pistoleiro, caubói ou oficial de cavalaria, ele se tornou a personificação da fronteira americana.
O narrador do romance The Moviegoer, de Walker Percy, lembra dele matando “três homens com uma carabina, enquanto caía na poeira da rua em No Tempo das Diligências”. Joan Didion o chamou de o “molde perfeito” no qual “os anseios de uma nação” eram derramados.
John Wayne colocou de forma mais simples: “Encontrei o personagem que o homem médio quer que ele, seu irmão ou seu garoto seja”. “É o mesmo tipo de cara que a mulher média quer para marido. Ande sempre de cabeça erguida e olhe diretamente nos olhos.” Na sua carreira, ele rejeitaria papéis – como o do intrigante e corrupto Willie Stark em A Grande Ilusão – que violavam suas crenças.
Scott Eyman, autor de uma nova biografia de Wayne, The Life and the Legend, diz que ele pretendia interpretar somente “homens que espelhavam suas próprias crenças e seus valores”.
Como o livro de Eyman deixa claro, o homem Duke Morrison não era sinônimo do personagem John Wayne que ele criou na tela. “Para Wayne”, escreve Eyman, “ele era Duke Morrison. John Wayne era para ele o que o Vagabundo era para Charlie Chaplin – um personagem que se sobrepunha à sua própria personalidade, mas não a ponto de subjugá-la”.
Eyman lembra que a persona na tela que Wayne idealizou para si – de um homem que era a um só tempo um estranho e uma figura autoritária – ajudou a transformar um garoto desajeitado e inseguro na “representação enfática de uma masculinidade americana”, que era segura de si o suficiente para abrigar uma certa melancolia e vulnerabilidade por baixo da autoconfiança.
Essa história da invenção de si mesmo por John Wayne já foi contada muitas vezes. The Searchers: The Making of an American Legend, o poderoso livro de Glenn Frankel, de 2013, sobre a obra-prima de John Ford, discute como o jovem Wayne estudou os modos do astro de western Harry Carey e as lições que aprendeu com o dublê Yakima Canutt, ex-astro de rodeios. E o livro de 1997 de Wills, John Wayne’s America, também percorreu boa parte desse terreno.
O trabalho de Eyman tem a pretensão de ser bem mais abrangente do que as obras anteriores. Às vezes, exagera, registrando fielmente filmes mais esquecíveis de Wayne. O autor também gasta bastante espaço em questões discutidas há décadas (como a relação de Wayne com a política conservadora e sua escolha de filmes).
Mas o que essa biografia faz com habilidade é dar um retrato vigoroso de John Wayne – isto é, Duke Morrison – e a Hollywood em que ele trabalhou, enquanto mapeia seu crescente domínio do ofício. Ele percorre a transição de Wayne dos papéis agitados, pueris, dos primeiros filmes a um homem dominador e confiante; do “sujeito comum perfeito” de John Ford ao “pai de todos” e, eventualmente, “avô de todos” como em Bravura Indômita. Eyman nos dá um senso vívido da relação mentor-protegido entre Ford e Wayne. Ele reconhece o conhecimento íntimo do processo cinematográfico que estava por trás daquele ‘à vontade’ de Wayne na tela. E aprecia, também, a ambiguidade e complexidade de papéis como Ethan Edwards em Rastros de Ódio (um homem possuído pela vingança e fúria racista, e, no entanto, fiel a seu código de honra moral) e o sentimento profundo de perda ou isolamento de personagens como Nathan Brittles em Legião Invencível e Tom Doniphon de O Homem Que Matou o Facínora.
O Duke Morrison retratado nesse livro é um profissional, que chega sempre no horário no set, rápido para se desculpar quando se descontrolava e solícito com a equipe e os extras. Fumante inveterado, bebia muito, como vários de seus personagens, mas era também um amante de livros capaz de citar Shakespeare e Dickens.
“Para o bem da clareza psicológica”, Eyman observa ainda que o ator sempre pedia para as pessoas o chamarem de Duke, não de John. “Sempre fui Duke, ou Marion ou John Wayne”, afirmou ele, em 1975. “É um nome que fica bem junto e é como uma palavra – JohnWayne.”

(Fonte: O Estadão)

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Autor reconta história de voo sequestrado em 1972 em livro

Brendan Koerner, autor do livro 'O Céu nos Pertence'

Brendan Koerner, autor do livro ‘O Céu nos Pertence’

Nos Estados Unidos dos anos 1960 e 1970, os aeroportos não eram fortalezas como no pós-11/9. Qualquer um podia embarcar em um avião com uma arma sem que apresentasse o cartão de embarque, submetesse a bagagem ao raio-X ou fosse revistado.
Por pressão das empresas aéreas, que não queriam soar antipáticas, não havia detectores de metal ou revistas pessoais. Tanta fragilidade resultou numa onda de sequestros de avião no país naquela época: foram 159 de 1961 a 1972.
Não era raro, por exemplo, haver vários deles em uma mesma semana, com requintes cinematográficos, como sequestradores que fugiam (ou tentavam fazê-lo) ao saltar de paraquedas.
A “era de ouro dos sequestros aéreos” é retratada em “O Céu nos Pertence”, de Brendan Koerner, lançado no Brasil no final de fevereiro.
“Havia muita raiva na sociedade americana naquela época, muito disso ligado ao ressentimento causado pela Guerra do Vietnã [em pleno curso na ocasião]”, afirma Koerner, 39, à Folha.
“Muita gente se sentia como se quisesse confrontar as autoridades e a sociedade, e os aviões lhes serviram como um palco perfeito para chamar a atenção do país para as suas várias queixas.”
Era habitual, por exemplo, sequestrar um avião e levá-lo a Cuba, sob a premissa de que ali haveria simpatia a opositores do governo americano —o que nem sempre acontecia, uma vez que Fidel Castro suspeitava que fossem ações de espiões a serviço dos EUA.
Koerner centrou a narrativa em torno do casal formado pelo veterano do Vietnã Willie Roger Holder e pela namorada dele, a stripper Catherine Marie Kerkow, que, em junho de 1972, tomaram o voo 701 da Western Airlines.
Naquele que permanece o maior sequestro em distância da história americana, o casal ameaçou explodir uma bomba a bordo e desviou um voo que ia de Los Angeles a Seattle. Parte dos passageiros foi deixada em San Francisco e Nova York e a aeronave seguiu para a Argélia, onde o casal obteve asilo.
A companhia aérea concordou em pagar US$ 500 mil como resgate, algo comum na ocasião. O livro conta a disputa que se sucedeu pelo dinheiro, com a participação do governo argelino e da polícia.
A produção do livro, diz o autor, exigiu três anos de pesquisa e entrevistas com tripulação do voo da Western e com o próprio Willie Holder.

O CÉU NOS PERTENCE
AUTOR Brendan I. Koerner
EDITORA Zahar
TRADUÇÃO Alexandre Martins
QUANTO R$ 44,90 (336 págs.)

(Fonte: Folha de São Paulo)

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Livro retrata racismo no século 19 e relação entre feminista e garota negra

Sue Monk Kidd, autora de 'A Invenção das Asas', posa em sua casa na Flórida, nos EUA

Sue Monk Kidd, autora de ‘A Invenção das Asas’, posa em sua casa na Flórida, nos EUA

Em seu segundo romance, a americana Sue Monk Kidd usa a relação entre Sarah Grimké —feminista que lutou pela abolição da escravidão no sul dos Estados Unidos— e a garota negra que lhe foi dada como servente na infância para traçar um panorama de como opressão de gênero e racismo andavam lado a lado na manutenção da ordem social do século 19.
A história se passa em Charleston, em 1803, quando Sarah recebe uma menina da mesma idade, Hetty, como presente de aniversário. Segundo a pesquisa de Kidd, apesar de ter sido criada no coração do sistema escravocrata, Sarah demonstrava repulsa a esse esquema desde os quatro anos.
“Sei que parece romantizado achar que uma menina branca de 11 anos poderia ter uma posição tão consistente contra a escravidão, mas Sarah foi uma personagem histórica e não há floreio nesse aspecto”, explica Kidd em entrevista à Folha.
“A Invenção das Asas” bebe na fonte de clássicos como “Amada”, de Toni Morrison, para dar materialidade ao tema do preconceito racial.
“Meu objetivo era resgatar a figura de Sarah, varrida da história como a de tantas mulheres importantes, e pintar um retrato de como era a dinâmica social dos escravos em ambiente urbano, já que o público costuma associar a escravidão apenas ao trabalho rural, às fazendas de algodão”, conta Kidd.
Enquanto Sarah e sua irmã, Angelina, são figuras históricas se não conhecidas ao menos bem documentadas, a escrava Hetty não passa de um borrão documental. Tudo que Kidd sabe sobre ela é que foi de fato dada como presente aos 11 anos, que era rebelde e que aprendeu a ler e escrever com sua senhora.
No livro, no entanto, a personagem recebe contornos realistas ao não se conformar com um papel de gratidão em relação à Sarah. O romance será transformado em filme pela Harpo Filmes, da apresentadora Oprah Winfrey, que já tinha incluído o livro em seu clube de leitura.
“Não vou trabalhar diretamente no roteiro, mas espero ler a versão final e opinar um pouco. Ver essa história ganhar as telas é maravilhoso para mim porque assegura o meu objetivo de resgatar a história dessas mulheres para o público.”
Kidd, que é uma escritora branca, conta que viveu em um sul pré-direitos civis e que demorou a erguer sua voz contra o racismo. “A opressão ainda é um fenômeno mais ou menos naturalizado nas sociedades ocidentais com histórico escravista e eu quis somar um pouco à essa discussão”, conta.
Em “A Invenção das Asas”, Hetty explica que cada um se rebela como pode. No caso de Kidd, sua rebelião foi abandonar uma vida convencional e um casamento para, aos 30 anos, decidir ser escritora.
Para escrever seu segundo livro, ela passou dois anos pesquisando a história das irmãs Grimké e o modo de produção escravista do século 19.
“Um dos momentos mais emocionantes para mim foi quando pude visitar a casa onde elas moravam. Hoje o que funciona lá é um escritório de advocacia. Achei simbólico porque Sarah queria estudar direito e não pode por ser mulher”, diz.
Foi pesquisando a casa que Kidd encontrou o sótão onde ambientou uma das cenas mais tocantes do livro, o piquenique secreto entre Hetty e Sarah. “Talvez isso explique bem como se compõe um romance histórico: as pessoas perguntam o que é real e o que é ficção e eu digo, me dê um sótão real que eu planejo todo um piquenique.”

(Fonte: Folha de São Paulo)

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Romance incompleto de F. Scott Fitzgerald revela complexidade

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As duas vias mais frequentadas pelos iniciantes, rumo à obra de F. Scott Fitzgerald (1896-1940), são “O Grande Gatsby” e “Paris É uma Festa”. A primeira via é um dos romances mais badalados do século 20, lançado em 1925 e considerado o melhor romance norte-americano já escrito.
A segunda são as sacanas memórias de Ernest Hemingway, publicadas postumamente, em 1964, sobre a “geração perdida”, que incluía Scott Fitzgerald e se reunia em torno de Gertrude Stein.
A tragédia do excêntrico Jay Gatsby escancara a rotina vazia e superficial dos endinheirados na Era do Jazz. É um retrato impiedoso dos anos dourados do charleston.
Por sua vez, as páginas que Hemingway dedicou ao instável Scott e sua turbulenta mulher, Zelda, também são um retrato impiedoso desse casal corroído pelo alcoolismo, pela tuberculose (ele) e pelo transtorno bipolar (ela).
Hemingway faz questão de realçar a hipocondria e a insegurança do amigo que tanto admirava e torturava com sua ironia.
A insegurança do escritor abrangia tudo, principalmente sua produção literária. No fim da vida, veio o ostracismo.
Scott foi escrever roteiros em Hollywood, atividade que considerava degradante. Morreu aos 44 anos, de ataque cardíaco, deixando pela metade “O Último Magnata”.
Dessa narrativa temos o rascunho dos primeiros capítulos e uma coleção de anotações e esboços.
De acordo com o crítico Edmund Wilson, “a intenção do autor era produzir um romance tão concentrado e elaborado quanto ‘O Grande Gatsby'”.
Em sua obra mais ambiciosa, Scott Fitzgerald planejava vingar-se da indústria do cinema nos Estados Unidos, expondo-a a partir de dentro.
“O Último Magnata” é um “roman à clef” narrado por Cecilia Brady, talvez a personagem menos inescrupulosa da trama. O autor inspirou-se na carreira do produtor Irving Thalberg para moldar seu protagonista, Monroe Stahr, e narrar a ascensão e queda de Stahr em Hollywood.
Seu maior rival, Pat Brady, pai de Cecilia, foi baseado no chefe de estúdio Louis B. Mayer.
Mesmo incompleto, o rascunho de “O Último Magnata” já revela sua potente complexidade. Mas a afirmação entusiasmada de Edmund Wilson de que é “a obra mais madura de Fitzgerald” sempre me parecerá exagerada.

O ÚLTIMO MAGNATA
AUTOR F. Scott Fitzgerald
TRADUÇÃO Christian Schwartz
EDITORA Penguin Companhia
QUANTO R$ 25,50 (232 págs.)
AVALIAÇÃO bom

(Fonte: Folha de São Paulo)

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Revelação da literatura policial colhe elogios com novo romance no Brasil

O escritor Raphael Montes posa em hotel de São Paulo

O escritor Raphael Montes posa em hotel de São Paulo

Raphael Montes entrou cedo para o mundo do crime. Aos 12 anos, foi cooptado por um britânico excêntrico e uma substância viciante demais.
Por sorte, o britânico era o escritor Arthur Conan Doyle (1859-1930) e a substância, o romance “Um Estudo em Vermelho”, primeira aventura de Sherlock Holmes. Com eles, o garoto descobriu sua vocação.
Não demorou a cometer seus próprios delito, histórias sobre pedófilos, professoras assassinas e mulheres serradas ao meio que fizeram dele a sensação da escola. Hoje, uma década depois, Montes continua a fascinar por seu universo macabro, mas sua fama já extrapolou os limites do Colégio de São Bento, no Rio.
Aos 23 anos, é um nome de destaque da literatura brasileira recente, trabalhando num gênero, o policial, ainda com pouca tradição por aqui.
A Companhia das Letras lança agora o segundo romance de Montes, “Dias Perfeitos”. Embora brevíssima, a carreira do escritor já ostenta uma série de conquistas.
O novo livro sai com uma tiragem inicial de dez mil exemplares, bem maior que a média do mercado (entre 3.000 e 5.000). Na capa, com destaque, um elogio nada singelo do best-seller americano Scott Turow, afirmando que Montes “certamente vai redefinir a literatura policial brasileira e surgir como uma figura da cena literária mundial”.
Em 2015, “Dias Perfeitos” deve ser lançado nos Estados Unidos pela Penguin. Fora isso,o autor vendeu seus dois livro para a produtora de cinema RT Features “por um valor na casa dos seis dígitos”.
É no cinema, por sinal, que Montes busca uma comparação para definir seu lugar no cenário brasileiro. “Quero ser o Tarantino da literatura, conciliar a cultura pop, a violência gráfica, a ironia e a qualidade artística.”
“Dias Perfeitos” é um pouco de tudo isso. Narra a história do amor obsessivo de Téo, solitário estudante de medicina, por Clarice, jovem roteirista. Rejeitado por ela, Téo dá início a uma jornada que inclui sequestro, esquartejamento e um bizarro hotel administrado por anões.
“Meus livros não são como o romance policial clássico, que começa com um crime, acompanha o trabalho do detetive e termina com o assassino desmascarado. Acho que a tendência é ser mais universal, brincar com as regras do gênero, embaralhar esses papéis fixos”, define.
A precoce ascensão de Montes pode dar a entender que tudo foi fácil em sua carreira. Mas nem sempre foi assim.
Ele concluiu seu primeiro romance, “Suicidas”, aos 19 anos. Em vão, passou os dois anos seguintes procurando uma editora que topasse publicar um livro policial de um autor desconhecido com tema horripilante: jovens que decidem se matar em um jogo de roleta-russa.
Tudo mudou quando inscreveu o livro no Prêmio Benvirá de Literatura. Não venceu, mas, recomendado pelo o júri, foi publicado pela Benvirá em 2012. “Suicidas” seria depois finalista do Prêmio São Paulo e do Machado de Assis.
Mesmo com pouca divulgação oficial, o livro foi alavancado pelo “boca a boca” nas redes sociais e já chega perto dos 7.000 exemplares vendidos. “Gosto de saber que as pessoas leem o que escrevo. Adoro conversar com os leitores no Facebook. Já recebi bronca, pedido de casamento. O escritor tem que sair de sua torre marfim.”
Enquanto lança “Dias Perfeitos”, Montes já pensa nos próximos livros. Além do que já começou a escrever, tem outros seis já planejados. A meta é lançar um por ano e, entre eles, desenvolver projetos para TV e cinema. A vida no crime, afinal, é uma tentação quase impossível de largar.

(Fonte: Folha de São Paulo)

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Contos de Monteiro Lobato voltam em volume único

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“Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são” – a frase imortalizada por Mario de Andrade em Macunaíma poderia muito bem ter sido escrita por Monteiro Lobato (1882-1948). Basta conferir o tom de seus textos curtos, reunidos agora pela primeira vez em um único volume, para se ter a dimensão de sua visão realista em um momento do Brasil (início do século passado, a chamada Primeira República) em que a pobreza era dominante porque a maior parte da população parecia imersa no atraso.
Contos Completos, que a Biblioteca Azul (selo da editora Globo) lança nesta semana, reúne os quatro livros de contos que Lobato publicou em vida: Urupês, em 1918, Cidades Mortas (1920), Negrinha (1922) e O Macaco Se Fez Homem (1923). São textos em que ele comprova não ter se influenciado pelo clima de reforma que marcava os autores do Rio de Janeiro, tampouco se entusiasmado pelas ilusões da Semana de Arte Moderna de 1922, que encantou a jovem burguesia paulistana.
“A contundência com que constrói a imagem do País, as imagens que apresenta da gente que o habita, as situações e os conflitos de seus personagens não só provocaram recepção favorável imediata como permanecem importantes no quadro da cultura brasileira, sobretudo pela forma com que Lobato, nestes textos, dá à realidade que quer mostrar, a da ficção”, observa Beatriz Rezende, professora da Faculdade de Letras da UFRJ e autora do prefácio da edição. Para ela, as narrativas do escritor paulista não eram para entreter, mas para provocar.
Personalidade de múltiplas facetas, movido por sonhos e utopias, Monteiro Lobato era um homem que tomava partido sobre todos os assuntos polêmicos de sua época, defendendo suas posições em cartas e artigos que publicava na imprensa, sobretudo no Estado. E sua paleta de opiniões variava na composição, da defesa da manutenção do petróleo brasileiro a críticas de arte, cuja contundência o credenciava como um dos mais respeitados observadores de artes plásticas da época.
No prefácio que escreveu para Contos Completos, a professora Beatriz Rezende atenta para a importância pictórica também em sua escrita. Citando uma passagem da obra Um Jeca nos Vernissages (Edusp), de Tadeu Chiarelli, ela observa que é possível identificar “os princípios da estética de Lobato, princípios estes que se estendem das artes visuais à literatura, na intenção de formalizar um programa naturalista-nacionalista para a arte brasileira”.
O ponto de partida dessa análise é considerar em Lobato uma fidelidade à verdade como base da crítica naturalista. “O naturalismo nacionalista em artes visuais queria ser uma tentativa de superação do atraso e da dependência do País, nesta área, em relação às nações europeias”, observa Chiarelli. “A arte moderna de Lobato era a arte naturalista, preocupada com a captação do ambiente, um comentário pictórico do dia a dia.”
Assim, não é de se espantar que seus contos tragam descrições que, muitas vezes, correspondem a verdadeiras pinceladas. Os Faroleiros, por exemplo, o primeiro texto de Urupês – tem-se a impressão, segundo Beatriz Rezende, de se estar diante de uma das inúmeras “marítimas” que os artistas pintavam na transição do século 19 para o 20: o mar e um farol distante com sua luz.
Escreve Lobato: “Cessam os olhos de rever as imagens que desde a meninice lhe são habituais. Para os ouvidos só há ali, dia e noite, ano e ano, o marulho das ondas às chicotadas no enroscamento da torre; e para a vista, a eterna massa que ondula, ora torva, ora azul. Variantes únicas, as velas que passam de largo, donairosas como graças, ou os transatlânticos penachados de fumo”.
A julgar pelas suas opções descritivas, é fácil concluir que Lobato tinha grande identificação (e admiração) pelas pinturas de Almeida Júnior e seus quadros do “verdadeiro” homem brasileiro – nasce aí a famosa figura do Jeca Tatu, que Lobato primeiro vai hostilizar, por sua completa falta de iniciativa, para depois valorizar como perfeito representante da cidadania nacional.
São dos pobres que Lobato mais e melhor trata em seus textos curtos. “No universo de sua ficção, como no País dos anos 1920, não há dinheiro, há poucos empregos conseguidos sempre pela estrutura do favor, não há possibilidade de ascensão social”, comenta Beatriz Rezende. “Ao escritor, também fazendeiro e editor, não interessam os personagens elegantes da sociedade emergente, que se moviam entre as metrópoles europeias e nossas capitais, assim como também não vê o País com as lentes frequentes do ufanismo. Sua estética como sua ética, se ocupa do que falta ao País e a seus habitantes e não com as ilusões da modernidade, com suas ‘baratinhas’, melindrosas e almofadinhas, viagens a Paris e outros luxos partilhados por poucos.”
Diante dessa situação precária, a estética naturalista-nacionalista se encaixa como uma luva. Irritado com as queimadas, estúpida solução adotada por cultivadores para preparar a terra para novo plantio, Lobato, também agricultor, fez pesadas críticas na imprensa, na qual ainda apresentou um retrato desolador das decadentes cidades do interior de São Paulo, quebradas pelas mudanças de rumo da produção agrícola, sobretudo o café.
E a crítica logo se estendeu para a ficção – no conto Cidades Mortas, do livro do mesmo nome, Lobato é implacável ao retratar o Vale do Paraíba: “Ali, tudo foi, nada é. Não se conjugam verbos no presente. Tudo é pretérito”. Beatriz Rezende destaca também Café! Café!, conto em que um fazendeiro contrário à República, que julga culpada de todos os problemas, aposta na monocultura do café: “A fazenda era uma desolação; a penúria extrema; os agregados andavam esfomeados, as roupas em trapo, imundos, mas a trabalhar ainda”.
“Nem mesmo a emigrante alemã do caso dos quatrocentos mil-réis narrado em Dona Expedita (de Negrinha) está livre das dificuldades em conseguir garantir a sobrevivência, no sonho de um emprego doméstico por quatrocentos mil-réis, disputado com dona Expedita, senhora da pequena burguesia empobrecida que anunciava em jornal seus préstimos de ‘tomadeira de conta’ ou dama de companhia, ‘graus levemente superiores à crua profissão normal de criada comum’”, completa a pesquisadora.
São tipos variados, mas nenhum conseguiu tanta notoriedade como Jeca Tatu, personagem surgido nos dois últimos contos de Urupês: Velha Praga e Urupês, ambos de 1914. No primeiro, o caboclo é apresentado como uma “espécie de homem baldio, seminômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças”. Refratário aos movimentos do progresso, vive “encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se”.
Já no conto Urupês, ele surpreende ao deixar momentaneamente aquela posição habitual, de cócoras diante do fogo, para votar no Governo, mesmo sem ter a noção de que são aqueles políticos os responsáveis por sua situação deplorável. “É sobretudo a denúncia da submissão do Jeca aos interesses do Governo que em recompensa o despreza, junto à convicção de que a falta de saneamento básico é a causa de sua ‘lombeira’, que irá transformar o Jeca Tatu em personagem símbolo da identidade nacional que Monteiro Lobato estava interessado em construir”, nota Beatriz.
Curiosamente, tempos depois, quando o Jeca já se transformara em símbolo nacional (uma citação do caboclo feita por Rui Barbosa, então candidato à presidência da República, fez as vendas do Urupês dispararem), Lobato mudou sua visão e, em carta ao amigo Godofredo Rangel, em 1917, declara-se: “Virei a casaca. Estou convencido de que Jeca Tatu é a única coisa que presta neste país”.
A posição de Monteiro Lobato provocava reações distintas entre outros escritores. Os modernistas, em um primeiro momento, execraram seus textos, nítida reação às interpretações negativas que o escritor, como crítico de arte, fizera à pintura de Anita Malfatti, no célebre artigo publicado no Estado em 1917, A Propósito da Exposição Malfatti (Paranoia ou Mistificação?).
Lobato era até rejeitado como modernista, ainda que sua filosofia nacionalista se adequasse perfeitamente à daqueles escritores. É Oswald de Andrade, em carta enviada 25 anos depois a Lobato, quem faz o principal ‘mea-culpa’: “Esqueçamos a estética e a Semana de Arte e estendamos as mãos à sua oportuna e sagrada xenofobia”.
Em época anterior, também Lima Barreto interessou-se pela escrita de Lobato, especialmente ao destacar as qualidades visuais da estética naturalista-nacionalista do texto. “A sua roça, as suas paisagens não são coisas de moça prendada, de menina de boa família, de pintura de discípulo ou discípula da Academia Julien: é da grande arte do nervoso, dos criadores, daqueles cujas emoções e pensamentos saltam logo do cérebro para o papel ou para a tela”, escreveu ele, em carta que consta na bem fornida Fortuna Crítica, que marca o final do volume.
CARTA DE OSWALD DE ANDRADE
O Jeca, você sabe melhor que ninguém, tem sobre o seu Cáucaso oleoso a pata gigantesca e astuta dos interesses… equívocos. Dão-lhe armas, mas negam-lhe os mananciais do sangue que movimenta as máquinas, ergue os aviões e equipa as cavalarias mecanizadas. Ele bem que é ajudado por uma ala simpática da América do Norte, à frente da qual está o cowboy Roosevelt e o camarada Wallace. Mas isso não basta. Lá mesmo, no solo dessa América medíocre e insípida que você conheceu, trava-se a luta entre os pioneiros do mundo melhor e o capitalismo de vistas curtas e unhas longas”
RESENHA DE LIMA BARRETO
A sua roça, as suas paisagens não são coisas de moça prendada, de menina de boa família, de pintura de discípulo ou …discípula da Academia Julien: é da grande arte do nervoso, dos criadores, daqueles cujas emoções e pensamentos saltam logo do cérebro para o papel ou para a tela. Ele começa com o pincel, pensando em todas as regras do desenho e da pintura, mas bem depressa deixa uma e outra coisa, pega a espátula, os dados e tudo o que ele viu e sentiu sai de um só jato, repentinamente, rapidamente. O seu livro é uma maravilha nesse sentido”
CRÍTICA DE CÂMARA CASCUDO (1921)
“Negrinha é o segundo tomo do Urupês. Ligam-se pelo mesmo vínculo de observação, crítica e ideias nossas, originais, sabendo… à terra, aos ares e às coisas do Brasil. Desviam-se da literatura que entulha as livrarias do Rio e São Paulo. Livrinhos bolorentos, imagens que a França nos impinge através de Calmann-Lévy, Lemerre, Vernier, de Carpentier ou o aristocrático Ferrand. Estamos nos debatendo numa turbamulta de nervosismos, simbolismos, cubismos, futurismos, aplicados às letras, cheirando a mofo e incenso – temas velhíssimos se batidos por três séculos de frivolidades parisienses”

(Fonte: O Estadão)

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Historiador Jacques Le Goff reformula visão da Idade Média em dois livros

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A história pode ser contada de várias maneiras, mas, para entender seu significado, é preciso que o imaginário de cada época seja estudado sem preconceito – e decifrado, como o faz o historiador francês Jacques Le Goff em dois livros sobre o período injustamente chamado de “Idade das Trevas”. Le Goff, que escreveu sua primeira obra sobre a Idade Média em 1956, falando de comerciantes e banqueiros, retoma agora o tema num outro patamar em A Idade Média e o Dinheiro (Civilização Brasileira). Simultaneamente, a editora Estação Liberdade lança o luxuoso Homens e Mulheres da Idade Média, livro fartamente ilustrado que retrata 112 santos, heróis e figuras mitológicas que alimentaram o imaginário do homem medieval.
Le Goff, que descobriu a Idade Média ainda criança, lendo o romance Ivanhoé (1820), de sir Walter Scott (1771-1832), ficou fascinado com os personagens secundários desse que é considerado o primeiro romance histórico e que descreve a luta entre saxões e normandos. Quando, mais tarde, escreveu sobre o personagem do cavaleiro na Idade Média, veio à memória do medievalista o cavaleiro Wilfred de Ivanhoé e o perverso templário Brian de Bois Guibert, adotados como referências. Le Goff, que completou 90 anos em janeiro, faz, em Homens e Mulheres da Idade Média, um exercício de antropologia histórica para oferecer um panorama fascinante do período com a colaboração de outros historiadores.
Chama a atenção nesse seu livro a predominância de santos entre os homens e mulheres escolhidos por sua equipe de colaboradores. Le Goff justifica: os santos, para ele, são uma “particularidade própria do cristianismo, pois não têm correspondentes nas outras religiões”. São os novos heróis, uma “novidade na paisagem europeia” medieval. Le Goff discorda de outros historiadores – especialmente os ingleses – quando esses se referem à Idade Média como um período obscurantista.
A “Idade das Trevas”, diz ele, foi uma invenção dos humanistas do Renascimento. Para Le Goff, ao contrário, a Idade Média “foi um longo período criativo e dinâmico” – e cujos traços essenciais, enfatiza, “estendem-se até o século 18, período em que ocorrem os dois acontecimentos fundamentais que criam a modernidade: o nascimento da indústria na Inglaterra e a Revolução Francesa”.
Le Goff não faz vista grossa para os aspectos negativos da Idade Média, que viu nascer a Inquisição, crescer a intolerância religiosa, a tortura, o senso hierárquico da aristocracia e o macabro. Mas lembra que a Idade Média foi também a da promoção da mulher, por meio do discurso filosófico de São Tomás de Aquino (1225-1274), o primeiro a afirmar que homens e mulheres são iguais perante Deus. Tomás tomou o hábito dominicano contra a vontade da mãe Teodora – ela mandou raptá-lo na estrada sem conseguir dissuadir o filho da ideia. Foi o teólogo escolástico de maior importância nessa época, marcada, segundo Le Goff, pelo nascimento da laicidade. Mais um choque. Por que na Idade Média? Porque, na Antiguidade, tudo era sacralizado. “Foi no período medieval que se fez, pela primeira vez, a distinção entre o sagrado e o profano.”
É curioso que o historiador, no livro, trate personagens reais, como Santo Agostinho de Hipona, São Francisco de Assis e Santa Clara com a mesma reverência com que destaca figuras mitológicas como a Melusina, uma mulher-dragão que surge na literatura latina do século 12 e foge quando aspergida com água benta. Le Goff confessa ser fascinado por ela, um híbrido de fada, figura diabólica, amante e mãe dedicada de vários filhos, por vezes representada como uma sereia.
Para encarnar o mal, Le Goff preferiu a figura do diabo, oferecendo uma biografia de Satã ao lado de um ensaio sobre o papel da Virgem Maria como promotora real da mulher numa época em que o poder estava nas mãos dos homens. O culto à Virgem, do século 12 em diante, foi, segundo o historiador, fundamental para que a dama do sistema feudal fosse elevada a uma categoria superior ao “vassalo” de pernas peludas.
Há também, entre os biografados, figuras transformadas em mitos, como o rei Arthur, o cavaleiro Roland e o popular Robin Hood. A maioria dos personagens pertence à religião cristã. Judeus e muçulmanos são raros na lista, a despeito de terem sido numerosos na Península Ibérica no século 15. Ele abre uma concessão para Averróis (1126-1198), nascido na Espanha muçulmana – e, ainda assim, por ter sido estudado por escolásticos cristãos, que o tinham na mais alta conta. Há também o curdo Saladino (1137-1198), viril herói dos romances de cavalaria que, apesar de expulsar os cristãos da Palestina, virou ídolo entre eles, assim como dos muçulmanos (exceto os xiitas). Sua contrapartida é o rei Ricardo Coração de Leão (1157- 1199), que Saladino considerava um tanto amalucado, a ponto de arrancar o coração de um leão com as mãos.
O livro de Le Goff é um correspondente contemporâneo da Legenda Áurea com personagens do mundo laico. Revê mitos como o do pintor Giotto (1267-1337), que o historiador retrata como diretor de uma verdadeira empresa de pintura – e um tanto cínico, compondo canções que falavam mal dos pobres enquanto o artista, rico, pintava cenas sacras. Dante Alighieri (1265-1321), o autor de A Divina Comédia, considerado a Idade Média em pessoa, não escapa igualmente das críticas, a despeito de a colaboradora de Le Goff, Jacqueline Risset, reconhecer em seu clássico um “milagre poético” cuja beleza anunciou a modernidade. Dante, a exemplo de Giotto, foi um humanista “irônico e indomável” com irresistível vocação para disputas políticas (condenado à morte, ele foi banido de Florença, morrendo no exílio).
Numa época obcecada pelo Juízo Final e marcada por calamidades como a peste negra, é compreensível que a Idade Média termine no livro com um estudo sobre Satã. Uma primeira “explosão diabólica” ocorreu nos séculos 11 e 12. Mas foi o inferno da Divina Comédia que marcou simbolicamente a passagem entre épocas, anunciando com muita antecedência o espírito renascentista.

(Fonte: O Estadão)

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