JUNHO – 2014

Sarah Polley será a roteirista e diretora da adaptação Quem é você, Alasca?

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A cineasta Sarah Polley  será roteirista e diretora da adaptação para as telonas de Quem é você, Alasca?. O livro é a primeira obra de John Green, autor de A culpa é das estrelas, filme que somou 1 milhão de espectadores no Brasil apenas na estreia. O novo longa conta a história de Alaska Young, uma garota inconsequente que desperta o desejo de todos os garotos da escola.

(Fonte: CorreioWeb)

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Inspirada em livro de Stephen King, série ‘Under the Dome’ chega à Globo

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A ideia inicial dos produtores de “Under the Dome” era transformar o livro “Sob a Redoma”, de Stephen King, em uma série de 13 episódios.

Mas o público deu uma nova luz às expectativas: os primeiros capítulos da atração tiveram média de 13 milhões de espectadores nos Estados Unidos e o canal CBS não esperou nem o fim da primeira temporada, que estreia nesta segunda (30) na TV Globo, para encomendar um segundo ano.

Não é difícil entender o sucesso da série. Há o mistério essencial à maioria dos programas de TV. Neste caso, a pequena cidade de Chester’s Mill, isolada do mundo por uma redoma intransponível.

Depois, os produtores Neal Baer e Steven Spielberg mais o roteirista Brian K. Vaughan conseguiram equilibrar ousadia visual (explosões nucleares, vacas cortadas ao meio) com personagens de perfis já conhecidos na TV.

O principal deles é Barbie (Mike Vogel), ex-militar boa pinta com passado misterioso, mas de coração puro e que se apaixona por Julia (Rachelle Lefevre), mulher do homem que acabara de assassinar.

Há Big Jim (o Dean Norris, de “Breaking Bad”), dono de uma concessionária com aspirações ditatoriais, e seu filho, Junior (Alexander Koch), dublê de psicopata.

E, claro, os adolescentes espertinhos, cortesia de Colin Ford e Mackenzie Lintz, que têm convulsões relacionadas ao aparecimento da redoma.

“É uma parábola para nossa época. Lidamos com problemas parecidos como sustentabilidade, convivência com os próximos, aquecimento global”, explica Baer.

“Queria transformar Chester’s Mill em um microcosmo do mundo em que vivemos, onde os recursos estão acabando, as pessoas se sentem mais pressionadas por espaço e o meio ambiente parece estar se deteriorando”, concorda o escritor Stephen King.

No Brasil, a segunda temporada de “Under the Dome” será exibida a partir de 28 de julho no canal pago TNT.

NA TV
Under the Dome
estreia da série
QUANDO à 1h de ter. (1º), na Globo

(Fonte: Folha de São Paulo)

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Começa nesta segunda a venda de ingressos para a 12ª edição da Flip

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Os ingressos para a edição 2014 da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) começam a ser vendidos nesta segunda (30), a partir das 10h.

Os bilhetes para as mesas estarão disponíveis pela internet, no site da Tickets for Fun, pelo telefone 4003-5588 (número nacional) e nos pontos de venda credenciados (a lista completa dos pontos de venda está disponível no site www.ticketsforfun.com.br).

Os preços dos ingressos para a sessão de abertura da Flip e para cada uma das mesas da programação na Tenda dos Autores, principal espaço do festival são: R$ 46 (inteira) e R$ 23 (meia).

SHOW GRÁTIS
Neste ano, a Flip traz duas novidades com relação às entradas. O show de abertura, com a cantora Gal Costa, será gratuito e ocorrerá na praça da Matriz, no palco da tenda da Flipinha.

A transmissão da programação principal na Tenda do Telão também será gratuita pela primeira vez. Ocorrerá na praça da Santa Casa, na saída da Tenda dos Autores.

“As duas mudanças são resultado da evolução do projeto de arquitetura da Flip, com o objetivo de ampliar o acesso ao conteúdo das mesas literárias, bem como valorizar os espaços públicos da cidade de Paraty”, afirmou Mauro Munhoz, diretor-presidente da Associação Casa Azul, que realiza a Flip.

A Flip 2014 acontece de 30 de julho a 3 de agosto. O homenageado desta edição da festa literária será o o escritor, jornalista e desenhista Millôr Fernandes (1923-2012).

Entre os autores estrangeiros da programação, destacam-se a escritora neozelandesa Eleanor Catton, o jornalista americano David Carr e o suíço Joël Dicker.

(Folha de São Paulo)

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Confira a programação completa da Festa Literária Internacional de Paraty 2014

O jornalista, escritor e cartunista Millôr Fernandes, em Paraty, na primeira edição da Flip

O jornalista, escritor e cartunista Millôr Fernandes, em Paraty, na primeira edição da Flip

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2014 vai homenagear o jornalista, escritor e cartunista Millôr Fernandes e começará no dia 30 de julho com uma conferência do crítico Agnaldo Farias. Eleanor Catton, Vladímir Sorókin, Andrew Solomon e Eduardo Viveiros de Castro são alguns dos nomes que vão passar pela Tenda dos Autores. A venda de ingressos começa nesta segunda-feira. Veja a programação completa abaixo.

QUARTA-FEIRA, 30 DE JULHO

19h | sessão de abertura

Conferência

Agnaldo Farias fará a tradicional apresentação sobre a obra do autor homenageado, Millôr Fernandes, destacando sua importância para a arte brasileira.

Millormaníacos

Duas crias de Millôr, Reinaldo e Hubert — que nos anos 1980 editaram um filhote do “Pasquim”, o “Planeta Diário” — vão entrevistar o cartunista Jaguar, amigo e parceiro do homenageado.

QUINTA-FEIRA, 31 DE JULHO

9h30 | mesa Zé Kleber

A programação da mesa ainda não foi divulgada.

12h | mesa 1

Poesia & Prosa

A infiltração mútua entre poesia e prosa, presente nos livros “Meus desacontecimentos” (LeYa), de Eliane Brum, e “Ligue os pontos” (Companhia das Letras), de Gregório Duvivier, foi uma das lições da poesia marginal dos anos 1970. Charles Peixoto, um de seus expoentes, debate o tema com os dois estreantes.

15h | mesa 2

Os possessos

O escritor russo Vladímir Sorókin e a ensaísta americana de origem turca Elif Batuman, especialista na literatura do país, discutem a potente tradição literária da Rússia pelos olhos do século XXI.

17h15 | mesa 3

Fabulação e mistério

A britânica Eleanor Catton, autora de “Os luminares” (Biblioteca Azul), e o francês Joël Dicker, autor de “A verdade sobre o caso Harry Quebert” (Intrínseca), buscam a renovação do romance em obras ambiciosas. Os dois livros serão lançados durante a festa.

19h30 | mesa 4

Paraty, Veneza no Atlântico Sul

Um dos maiores nomes da arquitetura nacional e o primeiro brasileiro a vencer o prêmio Pritzker, Paulo Mendes da Rocha conversará com o crítico italiano Francesco Dal Co, um especialista na sua obra, sobre as afinidades entre duas cidades únicas: Veneza e Paraty.

21h30 | mesa bônus

Porque era ele, porque era eu

O escritor francês Mathieu Lindon e o crítico e escritor Silviano Santiago vão discutir a amizade, contracultura, drogas, paternidade, AIDS, amor gay e suas representações literárias. Santiago lançou recentemente “Mil rosas roubadas” (Companhia das Letras).

SEXTA-FEIRA, 1º DE AGOSTO

10h | Mesa 5

O guru do Méier

Cássio Loredano, caricaturista com passagens em veículos do Brasil e do exterior e colunista do caderno Prosa, do GLOBO, e o jornalista Sérgio Augusto, autor de seis livros — como “O lado B” e “As penas do ofício” — e colunista do jornal “O Estado de S. Paulo”, perfilam o homenageado Millôr Fernandes em traço e prosa.

12h | Mesa 6

À mesa com Michel Pollan

A arma de Michael Pollan em sua cruzada contra a comida industrial é a defesa do prazer de comer e de cozinhar, intimamente associado ao da leitura e da escrita. O ensaísta e militante da alimentação saudável lançará na Flip “Cozinhas — Uma história natural da transformação” (Intrínseca).

15h | Mesa 7

Marcados

Pioneira no registro do modo de vida dos yanomamis, a fotógrafa Claudia Andujar — que no livro “Marcados” (Cosac Naify) reúne algumas dessas imagens — conversa com o xamã e líder yanomami Davi Kopenawa, premiado pela ONU, sobre as origens, o presente e o futuro dos índios no Brasil.

17h15 | mesa 8

Livre como um táxi

O cronista Antonio Prata, autor do livro “Nu, de botas” (Companhia das Letras), e o escritor paquistanês Mohsin Hamid, que lança na Flip o romance “Como ficar podre de rico na Ásia emergente” (Companhia das Letras), têm em comum o uso do do humor e da crônica de costumes para fazer retratos irônicos do mundo e de si mesmos.

19h30 | mesa 9

Encontro com Andrew Solomon

O jornalista americano Andrew Solomon vai falar sobre seu último trabalho, “Longe da árvore” (Companhia das Letras), lançado no ano passado no Brasil. Trata-se de uma profunda investigação sobre famílias com filhos excepcionais, do autismo à surdez, passando pela síndrome de Down. A sua obra “O demônio do meio-dia”, de 2002, será relançada durante a festa.

21h30 | mesa 10

2x Brasil

Neste encontro, Cacá Diegues e Edu Lobo, dois ícones do cinema e da música brasileiras, vão fazer um balanço das suas trajetórias e da cultura nacional nos últimos 50 anos. Diegues lança na Flip a autobiografia “Vida de cinema” (Objetiva). Já Lobo participará do lançamento da sua biografia “São bonitas as canções — Uma biografia musical” (Edições de Janeiro), escrita pelo jornalista Eric Nepomuceno.

SÁBADO, 2 DE AGOSTO

10h | mesa 11

Liberdade, liberdade

As denúncias feitas pelo jornalista britânico Glenn Greenwald expuseram a ação dos serviços de espionagem dos EUA, que agem contra cidadãos e chefes de Estado no mundo todo. Charles Ferguson mostrou no documentário “Trabalho interno”, vencedor do Oscar em 2011, mostrou as relações espúrias entre o mercado financeiro, autoridades e universidades. Os dois vão debater sobre o poder no século XXI.

12h | mesa 12

Memórias do cárcere: 50 anos do golpe

Três vítimas da ditadura militar iniciada com o golpe de 1964, o jornalista Bernardo Kucinski, cuja irmã Ana Rosa desapareceu depois de presa, o economista Persio Arida, militante estudantil na época preso e torturado por vários meses, e o escritor Marcelo Rubens Paiva, filho do deputado desaparecido Rubens Paiva, expurgam através da escrita os terríveis dias dos anos de chumbo.

15h | mesa 13

A verdadeira história do paraíso

O israelense Etgar Keret e o mexicano Juan Villoro fazem de suas obras espelhos da exuberância e dos problemas de seus países, berços de antigas civilizações, oscilando entre a visão do paraíso e o terror diante da terra arrasada. Keret lança na Flip o livro de contos “De repente, uma batida na porta” (Rocco), seu primeiro livro publicado no Brasil. Já Villoro lança “Arrecife” (Companhia das Letras).

17h15 | mesa 14

Tristes trópicos

No segundo encontro dedicado aos índios e à Amazônia, os antropólogos Beto Ricardo, um dos fundadores da organização dedicada à defesa do meio ambiente e dos povos indígenas Instituto Socioambiental, e Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional/UFRJ e um dos criadores do conceito de “perspectivismo ameríndio”, vão conversar sobre o pensamento e a presença dos índios no Brasil de 2014.

19h30 | mesa 15

Encontro com Jhumpa Lahiri

Uma das principais narradoras em língua inglesa atualmente, a escritora americana de origem indiana Jhumpa Lahiri fala sobre seu novo romance, “Aguapés” (Companhia das Letras) e sobre como a literatura pode atuar na mediação entre culturas.

21h30 | mesa 16

Narradores do poder

Dois repórteres consagrados, a argentina Graciela Mochkofsky e o americano David Carr vão discutir as delicadas relações entre a imprensa e interesses públicos e privados. Graciela é autora de “Pecado original”, sobre a disputa entre os Kirchner e o grupo “Clarín”. Carr é colunista de mídia do “New York Times” e lançou no ano passado no Brasil, “A noite da arma” (Record), em que narra com rigor jornalístico seu passado de viciado em drogas e sua recuperação.

DOMINGO, 3 DE AGOSTO

10h | mesa 17

Ouvir estrelas

O físico Marcelo Gleiser, professor do Dartmouth College, nos Estados Unidos, e o professor de astrofísica Paulo Varella vão debater sobre os limites do conhecimento científico, a maneira como vemos o universo e o céu sobre as nossas cabeças.

12h | mesa 18

Romance em dois atos

Daniel Alarcón, escritor peruano radicado nos Estados Unidos, e Fernanda Torres, atriz e escritora, vão conversar sobre temas comuns aos seus romances — “À noite andávamos todos em círculos” (Alfaguara) e “Fim” (Companhia das Letras), respectivamente — como a morte, a velhice e as representações ficcionais da vida artística.

14h | mesa 19

Os sentidos da paixão

O português Almeida Faria — autor de “A paixão” (Cosac Naify), obra que será lançada durante a Flip — e o chileno Jorge Edwards vão abordar a paixão, o ciúme, o erotismo e a escrita, elementos recorrentes nas suas obras. No ano passado, a Cosac Naify publicou o primeiro romance de Edwards no Brasil, “A origem do mundo”.

16h | mesa 20

Livro de cabeceira

Os convidados Andrew Solomon, Etgar Keret, Graciela Mochkofsky, Joel Dicker, Juan Villoro, Eduardo Viveiros de Castro, Fernanda Torres e Marcelo Rubens Paiva leem e comentam trechos de livros de seus autores favoritos.

(Fonte: O Globo)
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A difícil e frutífera relação entre Jorge Luis Borges e Victoria Ocampo em cartas inéditas

O escritor argentino Jorge Luis Borges devia a Victoria Ocampo boa parte do seu sucesso na Europa

O escritor argentino Jorge Luis Borges devia a Victoria Ocampo boa parte do seu sucesso na Europa

Somente a partir do final, com essa necessidade que o presente projeta sobre o passado, é possível entender a relação — tão simples, tão intrincada — que uniu Victoria Ocampo e Jorge Luis Borges. Victoria morreu em janeiro de 1979. Nos três meses seguintes, Borges escreveu três artigos sobre ela. “Quase posso escrever que hoje tem início nossa silenciosa e verdadeira amizade”, afirmou em um deles, publicado em abril. Em outro, publicado no “La Nación” e intitulado simplesmente “V.O.”, dizia: “Podemos vê-la agora. Antes a ocultavam as circunstâncias, as coisas aleatórias de cada dia. Desde um instante de 1979 a distância mágica da morte nos deixa encontrá-la de um modo imóvel, eterno e singular”.

Victoria Ocampo e Borges se conheceram em meados da década de 1920 por intermédio de um amigo em comum, Ricardo Güiraldes, morto quatro anos antes da fundação da editora Sur. Victoria era infalível para reconhecer a condição excepcional dos outros. Não se enganou com Igor Stravinski, nem com Duke Ellington, não se enganou com T.E. Lawrence nem com William Faulkner nem com a maioria dos autores que decidiu publicar na revista e na editora Sur. Tampouco se enganou com Borges. “Havia nele uma tendência a ironizar aquilo que não gostava e nossos gostos diferiam. A ironia de Borges atuava sobre mim como o limão sobre a ostra aberta”, conta Victoria Ocampo no artigo que faz parte do quarto número do “Cahier de L’Herne” dedicado a Borges e que, traduzido, integra agora “Diálogos com Borges”. A edição reúne também cartas inéditas, textos do autor de “Ficções”, o livro de conversas entre ambos publicado originalmente em 1969 e várias fotografias (leia trechos das cartas em espanhol aqui). A metáfora do limão e da ostra é curiosa: o ácido provoca convulsão no corpo da ostra, mas também a limpa quase à esterilização. Que Borges podia irritar Victoria fica claro já na metáfora da frase; menos evidente é que ele a convertera em alguém diferente, a fizera mudar de ideia.

Ainda que escassa, a correspondência entre Borges e Victoria permite uma análise um pouco mais íntima sobre o vínculo dos dois. De 1927 até o início da década de 1970, cada uma das cartas de Borges inclui alguma forma de agradecimento ou é motivada por um. Na primeira, justamente dos anos 1920, ele agradece a leitura de sua conferência “Sobre o idioma dos argentinos” (o escritor não lia em público): “Você soube dizer o que eu sempre pensei da língua espanhola e que não pude dizer”. Victoria quis encontrar com ele. Meio século depois, Borges diria: “O garoto, como era de se supôr, estava um pouco intimidado pela imponente senhora e cinquenta anos não puderam desfazer totalmente aquele medo inicial”. Borges e Ocampo estiveram em desacordo em muitas questões, mas essa coincidência inicial sobre a conferência fixa uma posição comum; inclusive um texto posterior como “O escritor argentino e a tradição”, de Borges, condensa uma parte considerável do espírito da Sur.

Mais de uma vez — em 1946 e em 1953 — Borges enviou por carta seu currículo a pedido de Victoria. Ela não era sua agente, naturalmente, mas atuava como se fosse. O Borges público que conhecemos, o conferencista full time, é em boa medida uma invenção de Ocampo. Outra coisa era Victoria como editora. Embora Borges tenha publicado quase tudo pela Emecé, a maioria dos seus contos, poemas e ensaios apareceram primeiro na revista Sur. Era como se Borges usasse de certo modo a revista de Victoria como base de operações; como precisasse da distância da impressão em um periódico para dar a sua forma final depois. Nas cartas que envia de Austin, no Texas, durante uma viagem que fez com a mãe entre o fim de 1961 e o início de 1962, Borges pede “alguma tímida notícia” sobre uma antologia pessoal que deixou “por aí”. A carta está datada de 30 de novembro de 1931 e a antologia em questão, publicada pela Sur, foi impressa em dezembro deste ano. Além de ser a primeira antologia de Borges, esse livro teve outra particularidade um pouco mais banal. Na contramão da austeridade no desenho das capas da Sur — nada mais que o título, o nome do autor e a flecha que aponta para baixo no fundo liso — na “Antologia pessoal” havia uma foto de Borges, uma excepção concedida ao escritor excepcional.

“Pessoalmente devo muito a Victoria Ocampo, mas lhe devo muito mais como argentino”, disse Borges em “V.O.”. A dívida nacional parece dissimular perversamente a pessoal. Ninguém fez tanto por Borges como ela, mesmo que indiretamente. Foi por intermédio dela que Borges começou sua relação com Roger Caillois, decisiva para a recepção da sua obra na França e outros países da Europa. Na única carta de Victoria, em que com uma ponta de ressentimento trata de colocar as coisas nos seus lugares, disse: “Por exemplo, se a revista ‘Sur’ não tivesse convidado em 1939 Roger Caillois, autor jovem e desconhecido, para dar conferências em Buenos Aires, talvez a tradução de suas obras, querido Georgie, tivesse que esperar mais alguns anos. Sem dúvida, seria apenas uma demora. Outro o teria descoberto (para os europeus). Mas neste caso, a feliz escolha de ‘Sur’ resultou benéfica para a difusão da obra de Jorge Luis Borges…”.

“Ela possuía, no mais alto grau, ‘a graça que não me daria o céu’, e o dom da confidência sempre íntima e nunca indiscreta, que é o atrativo essencial de seus ‘Depoimentos’”. O elogio tardio de Borges esconde uma reticência ou uma incompreensão. O primeiro atrativo dos “Depoimentos” (“Testimonios”, no original, é um conjunto de ensaios, conferências e perfis escritos pela autora e organizados em 10 tomos) não é a confidência; se assim fosse, seu interesse seria meramente documental. Para dizê-lo de uma vez: não seria justo que, ainda agora, a obra de Sur e seu projeto modernizador ganhassem mais destaque do que a escritora.

No novo volume dos “Depoimentos”, Victoria escreveu: “Em relação a Borges, eu levo uma vantagem: eu o conheço. A recíproca é improvável. Eu o admiro. A recíproca é impensável”. Sua generosidade se põe a prova também na maneira em que seu jeito imperativo aceitou, dócil e fiel, as relações que julgava assimétricas. A de Borges e Victoria foi a amizade menos provável, tornada possível somente pela inteligência e abnegação mais desinteressada.

(Fonte: O Globo)
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‘Vida de Cinema’ põe em livro as memórias de Cacá Diegues

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Pouca gente vai discordar que Cacá Diegues é um dos grandes diretores brasileiros. E ele teve uma trajetória única – da crítica e do Cinema Novo aos grandes sucessos de bilheteria. Cacá há tempos vem escrevendo um livro de memórias que é também um resgate – de dentro – da história do cinema no País. Vida de Cinema finalmente foi dado como pronto pelo autor e está sendo lançado pela Editora Objetiva. O livro chega às lojas neste final de semana – 678 páginas, R$ 59,90 (o e-book custa R$ 29,90). Cacá autografa na Flip, em Paraty, na noite de 1.o de agosto e, no Rio, no dia 12, também de agosto. Ele conta tudo. E adverte, na abertura – “Esse livro não pretende provar nada. Nele, se você quiser pode pular parágrafos, capítulos, partes, páginas. Fique à vontade, leia só o que lhe interessa.” Um relato essencial, seminal. Mas também crítico, divertido, humano. Como essa entrevista por e-mail.
Existem filmes míticos, que os diretores perseguem durante anos. Esse é um livro mítico. Tem um desfecho meio abrupto, o pósfacio provisório. Certamente ainda haveria muito o que falar. Você resolveu dar um fim por que senão nunca ia acabar?
É isso mesmo. Levei seis anos escrevendo esse livro, porque tive que parar várias vezes por causa de meu trabalho no cinema. Eu já tinha uns rascunhos para a continuação, mas percebi o que isso ia me custar de tempo. Aproveitei a data de 1995, o início da “retomada” em que o Cinema Novo vira pura história, para encerrar o livro.
Comecei a ler suas críticas no tempo da revista Arquitetura, nos anos 1960. Você pertence a uma geração culturalmente muito rica. O exercício da crítica foi importante, precedendo o cinema?
Quase todos os cineastas de minha geração, além de fazer filmes, cultivavam a cultura cinematográfica. Alguns chegaram a assinar críticas em jornais, como Glauber, Gustavo Dahl, David Neves, eu. Outros, mesmo que mais esporadicamente, também escreviam, como Nelson (Pereira dos Santos) e Joaquim Pedro. O que nos movia, além do desejo de filmar, era um grande amor ao cinema. Não entendo como pode um cineasta não ter o costume de ir ao cinema e não se importar com o pensamento cinematográfico.
Você se envolveu em muitas polêmicas – contra as patrulhas ideológicas, até com parceiros de cinema. Como avalia hoje essas disputas que ocorreram em momentos pontuais?
Como você mesmo diz, foram momentos pontuais. Além de cineasta, me considero um militante de cinema, tenho a obrigação de dizer que não estou de acordo quando o que está sendo dito ou feito não é bom para o cinema. Mas não guardo rancor, o ressentimento é uma coisa que só faz mal a quem o cultiva. Posso ter desavenças com estranhos ou colegas, mas não os considero inimigos compulsórios e eternos.
Sua geração tinha um programa bem modesto (digo sem ironia). Queria só mudar o mundo e o cinema. Conseguimos (estou me colocando nesse plural)?
Não. Mas ajudamos os outros a verem o mundo de um modo diferente. A arte não é uma continuação da vida, mas uma outra vida porque essa que vivemos não é suficiente (acho que Ferreira Gullar já disse isso também, provavelmente melhor do que eu).
Glauber foi o farol de sua geração, e certamente existem muitos depoimentos ricos sobre ele. Mas você conta uma história que desconhecia e achei linda. É a história do apoio de Glauber ao Lima Barreto. Todo mundo fala do legado artístico dele. Mas e o homem que conheceste?
Glauber foi a pessoa mais interessante que conheci na minha vida, todo dia sinto saudade dele. Essa fama de guerreiro indomável que ele tem, às vezes nos impede de contemplar sua generosidade, fraternidade, capacidade de se interessar pelos outros. Não sei explicar isso, mas tenho certeza que ele morreu de desgosto por não ter podido mudar o mundo.
Tenho a impressão de que Joanna Francesa foi um filme divisor de águas para Você. Aquela ideia da Jeanne (Moreau) no lombo de Eliezer Gomes resultou numa das imagens mais fortes do cinema brasileiro. Faz sentido?
Você tem toda razão. Joanna Francesa é um divisor de águas, o momento em que primeiro encontro um razoável equilíbrio entre pensamento e sentimento, entre espetáculo e naturalismo, entre razão e emoção. Foi com Joanna Francesa que comecei a pensar que um filme deve emocionar, fazer pensar e encantar, tudo ao mesmo tempo. Os Herdeiros era uma metáfora épico-documental de minha geração. A Grande Cidade, um tributo ao cinema que me formou, do neorealismo a Nelson Pereira dos Santos, uma ponte entre o Cinema Novo rural do início e uma nova tradição urbana. Foi com Joanna Francesa que comecei a fazer filmes com personagens, mesmo que fossem apenas meus personagens.
Você foi casado com Nara Leão, mas antes disso já estava casado com a MPB. Chico, Caetano, Gil, Cartola (a quem reverencia como mestre). De onde vem esse amor pela música?
Sempre amei a musica, talvez eu seja um músico frustrado. Gosto de tudo, ouço de tudo, de jazz a ópera, de tango a rock’roll. Mas é evidente que tenho especial interesse pela música popular brasileira feita pelos músicos de minha geração, os quais vivo reverenciando em meus filmes. Eu vi essa música nascer, acompanhei seu descobrimento e reconhecimento mundial. Só posso me sentir também um pouco responsável por ela, mesmo que isso seja apenas uma ilusão.
Estamos em plena Copa, e o relato sobre os brasileiros exilados assistindo aos jogos de 1970 é emocionante. Houve tanta oposição a essa Copa, tanto protesto. Você vê os jogos? Talvez me engane, mas formulando a pergunta pensei – esse cara nunca filmou uma partida.
Acho que a seleção brasileira não é mais aquilo que Pier Paolo Pasolini chamou no passado de ‘invenção do futebol-poesia’. Mas ela ainda dá pro gasto e está à altura de todos os outros favoritos. Existem excelentes documentários sobre futebol, como os de Joaquim Pedro, Eduardo Escorel e João Moreira Salles, mas não conheço um só bom filme de ficção sobre o assunto. Talvez o futebol seja inencenável: como seria possível, por exemplo, encenar um drible de Garrincha?
Sua carreira atravessa momentos de crise do cinema brasileiro, mas um e outro têm sobrevivido para contar novas histórias. E assim como você passou a se preocupar mais com o público, também passou a defender a parceria com a TV. Essa partceria tem futuro?
Nenhum cinema nacional de todo o mundo pode sobreviver sem uma parceria com a televisão local. No momento em que se multiplicam os meios de difusão do audiovisual (TV aberta, paga, VOD, DVD, internet), essa parceria é mais do que nunca indispensável. Estamos no final de uma fase inicial de desconfiança mútua, mas acho que as coisas estão caminhando bem.
As comédias recentes têm sido muito criticadas. Há até uma tendência que consiste em definir parte dessas comédias como neopornochanchadas, o que não concordo. Me lembro que uma vez você disse que a pornochanchada era de direita. E hoje, os blockbusters de comédia?
Paulo Emílio Salles Gomes nos ensinou a respeitar aspectos positivos das chanchadas dos anos 1950, que deplorávamos tanto. As comédias urbanas e de costumes que fazem sucesso hoje são herdeiras de uma tradição que vem do teatro de revista do início do século 20 até a chanchada que foi para a TV nos anos 1970. O que existe são bons e maus filmes, comédias ou não. E, afinal de contas, precisamos ter uma certa modéstia e reconhecer que quem faz o sucesso desses filmes é o público.
A literatura pode alimentar seu cinema, mas foram poucas adaptações. É diferente trabalhar com material original?
A exceção de Tieta do Agreste, nunca fiz um filme totalmente adaptado da literatura. Em Ganga Zumba, usei os personagens do romance de João Felicio dos Santos, mas o filme não era uma adaptação do livro. O mesmo ocorreu com Deus é Brasileiro, tirado de um conto de João Ubaldo, e Orfeu, da famosa peça de Vinicius de Moraes. Sou um leitor sistemático, adoro a literatura brasileira e venero certos livros. Ou o livro é ruim e não me interessa perder tempo levando-o para as telas, ou é muito bom e tenho medo de estragá-lo.
Seu livro, como a vida, vai continuar?
Não tenho projeto nem vontade de continuar o livro. Mas, sei lá, pode ser que no futuro mude de ideia.
‘Joanna’ foi o grande divisor da obra inteira
Na entrevista acima, o próprio Cacá Diegues reconhece em Joanna Francesa o divisor de águas de sua carreira. Foi ali que ele começou a pensar que um filme deve emocionar, fazer pensar e encantar, tudo ao mesmo tempo. Na época do Cinema Novo, os autores queriam colocar – e de fato colocaram – o povo na tela, mas não necessariamente na plateia. Era o preço a pagar pela ousadioa, por fazer filmes críticos, contra a corrente. Reavaliando o movimento, Cacá acrescenta que sua geração ajudou os outros a verem o mundo de um modo diferente. E reflete, pegando carona em Ferreira Gullar, que a arte não é uma continuação da vida, mas uma outra vida, porque essa que vivemos não é suficiente.
Para o espectador que vai ler Vida de Cinema, o livro reserva surpresas. Algumas das mais belas referem-se à rodagem de Joanna Francesa no interior de Alagoas. Cacá havia importado uma grande estrela da França – Jeanne Moreau – e ela foi guerreira ao enfrentar as dificuldades da produção, o isolamento provocado pela barreira da língua. Mas houve um momentro em que Jeanne não aguentou. No último dias, ela pediu um refrigerante e o garoto da produção disse que não tinha mais. Ela explodiu, destratou o jovem que, à noite, lambuzou-se de m…, de certo (psicanálise elementar) para ficar no nível em que ela o colocara. A cena de Joanna, no filme, cavalgando no lombo de Eliezer Gomes – que havia sido Tião Medonho em O Assalto ao Trem Pagador, de Roberto Farias -, ganha outra dimensão, outro significado.

VIDA DE CINEMA
Autor: Cacá Diegues
Editora: Objetiva (678 págs., R$ 59,90; R$ 29,90 o e-book)

(Fonte: O Estadão)

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Nuno Ramos cria instalação a partir do livro ‘É isto um homem?’, do escritor italiano Primo Levi

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É isto um homem? Eis uma pergunta que estabelece uma experiência limite, além das fronteiras, evidenciando a literatura de testemunho que, ao contar aos outros, como faz Primo Levi, torna-os participantes de uma das maiores atrocidades do século XX. A Shoah é onde esse eterno outro identificado como estrangeiro perdeu o estatuto de humano, em uma comparação que tem suas fraturas da linguagem e suas implicações políticas. No livro “É isto um homem?” temos uma unidade formal que possui uma ordem de urgência, como ressalta Levi no prefácio: “seus capítulos foram escritos fora de uma sucessão lógica, mas por ordem de urgência”. Seguindo por essa urgência, a própria montagem que reencena a coerência posta em questão surge como uma emergência política.

Na reabertura do Museu da Imigração, em São Paulo, no último 31 de maio, Nuno Ramos montou a instalação que traz no título a pergunta de Primo Levi: “É isto um homem?”. O tijolo é um fio condutor de toda a peça, montada no início da nova exposição de longa duração da casa. A instalação pode ser lida, inclusive, como um movimento migratório, do texto de Primo Levi ao espaço do museu. O artista cria duas experiências fundamentais a partir do barro. A primeira marca apenas um tijolo, protegido por uma vitrine, sobre uma cadeira e diante de um amplificador que emite um trecho da narrativa “Um dia bom”: “a torre do Carbureto, que se eleva no meio da fábrica e cujo topo raramente se enxerga na bruma, fomos nós que a construímos. Seus tijolos foram chamados Ziegel, briques, tegula, cegli, kamenny, bricks, téglak, e foi o ódio que os cimentou; o ódio e a discórdia, como a Torre de Babel, e assim a chamamos: Babelturm, Babelturm, e odiamos nela o sonho demente de grandeza dos nossos patrões, seu desprezo de Deus e dos homens, de nós homens.” A segunda situação implica no desabamento de uma carga com mais de vinte e sete mil tijolos, pelo eixo quebrado de uma carroceria de caminhão. Em cada um está escrito uma das palavras para o objeto nas sete línguas descritas por Levi, isto é, em francês, tcheco, iídiche, alemão, húngaro, inglês, ao que Nuno Ramos acrescenta a palavra em português.

MIGRAÇÃO DA LITERATURA PARA ARTES PLÁSTICAS

No trecho da narrativa existe o movimento migratório da literatura para o acontecimento plástico, quando Nuno Ramos distingue uma dupla maldição no texto de Primo Levi. A primeira consiste no trabalho e a segunda na diáspora das línguas. Em ambos, palavra por palavra montam ainda uma estrutura simples, direta e enxuta para participar ao outro aquilo que é contado apesar de tudo. Esse apontamento assustador reforça a condição de diáspora das línguas. É assim que o princípio da Torre de Babel marca uma inadequação entre uma língua e outra relacionada a uma estreita ligação com a impossibilidade (arquitetural) do finalizar algo, associando o trabalho à destruição.

Ao utilizar a carroceria de um caminhão, Nuno Ramos se vale da maldição de uma carga a qual se constrói para destruir, em um extermínio que ultrapassa a metáfora da comparação bovina ou a lógica de extermínio animal. Além disso, o espaço da morte com uma recorrência arquitetônica é uma prática em pelo menos três outras instalações do artista, observando obras em que a alvenaria é desestabilizada como “Morte das Casas” (Rio de Janeiro, 2004), “ai, pareciam eternas! (Três lamas)” (em Belo Horizonte, 2011) e “Globo da morte de tudo” (também no Rio, 2012). As duas primeiras obras abrem o espaço da morte pela poesia (de Drummond), onde as casas também morrem; as casas que o artista viveu submergem na lama e a destruição dos objetos a partir da intervenção de um motociclista girando em um globo da morte, derrubando os objetos que estavam nas prateleiras ligadas à estrutura do globo.

Em “É isto um homem?”, o artista mais uma vez retira a pele invisível da neutralidade do espaço expositivo, constituindo no acidente a queda diante da impossibilidade de construção. Ele simula as duas maldições, a do trabalho (na carroceria caída) e a da diáspora das línguas, no texto lido em oito idiomas para um tijolo. Ramos reelabora a queda, o acidente que, aquém do relato de Primo Levi, também reitera essa dupla maldição aos acidentes de transportes de cargas ao longo das rodovias brasileiras, aquilo que faz do trabalho interrompido uma falha, um problema de distribuição diante de corpos anônimos participantes de um sistema que coordena os destinos das cargas e dos corpos. Finalmente, trata-se de um outro nível da migração: o aparato do destino dos objetos, a fatalidade de cargas que segue no ritmo contínuo da organização do mundo. Ao derrubar uma carga de tijolos, Nuno Ramos abre o tijolo para convocar o barro que nele ecoa, a matéria primitiva que possui uma força capaz de anular a equação entre homem e trabalho e, mais profundamente, o silogismo que o trabalho liberta.

(Fonte: O Globo)

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Manoel Ricardo de Lima lança reunião de poemas e livro sobre poeta e engenheiro Joaquim Cardozo

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Uma ideia de cidade atravessa os poemas de “Geografia aérea” (7Letras) e os ensaios de “A forma-formante” (Editora UFSC), livros recém-lançados pelo piauiense Manoel Ricardo de Lima, de 44 anos, escritor e professor de literatura na Uni-Rio. “Geografia aérea” reúne inéditos e novas versões de textos de seus livros anteriores, “Embrulho” e “Falas inacabadas”, de 2000, e “Quando todos os acidentes acontecem”, de 2009. Os poemas evocam imagens como a guerra e o deserto para falar de conflitos deflagrados em espaços públicos e íntimos. “A forma-formante” recupera o trabalho do pernambucano Joaquim Cardozo (1897-1978), figura pouco lembrada do modernismo brasileiro, poeta e engenheiro calculista do arquiteto Oscar Niemeyer. Nesta entrevista por e-mail, Lima fala sobre os dois livros, aproximados pela visão da cidade como lugar de confronto, mas também como utopia da convivência.

Em “Geografia aérea” aparece muito a imagem da guerra: há a guerra “redonda e total”, a “dobra mínima de guerra”, a tradução de “A guerra”, de Jacques Edwards. Por que essa recorrência da guerra nos seus poemas?

Uma ideia da guerra no meu trabalho (e aí não só em “Geografia aérea”, mas em “As mãos” e “Jogo de varetas”), me parece, muitas vezes, tem a ver com algo anterior que vem de “localização” ou de “fronteira”. Nasci no Piauí e vivi muitos anos no Ceará: pequenos espectros impessoais de deserto, mas que grudam no corpo como uma cicatriz. Nascer no Piauí ou ser fêmea de cupim dá no mesmo. Depois passei um tempo no sul do país, outra esfera, e agora nesta cidade que é uma alucinação convulsa (ainda mais às vésperas desses grandes eventos estranhos). E isto me deu, organicamente, uma dimensão do quanto este país é imenso e composto a partir de um caráter nocivo entre centro e distância, em tudo. Depois, acho que os usos da imagem da guerra são uma tentativa de atravessar com recorrência, num deslocamento incerto do meu corpo com a escrita, um certo estado crítico das coisas para outros sentidos, como a constituição política de um “confim” (contato e contaminação), por exemplo, o que me coloca sempre num limite com estar no mundo agora. Não tenho muitas dúvidas quanto às circunstâncias militarizadas e reacionárias que se impõem como regra às formas de vida presente, desde alguns discursos em favor da liberdade, que não são senão discursos de poder, até a composição de nossas cidades ou as perspectivas repetidas de uma mesma história. Assim, a imagem da guerra aparece como um assombro, algo às avessas, mas também como aquilo que se implica sobre um certo estado conformado de violência e desolação.

Outra imagem recorrente em “Geografia aérea” é o deserto, alguns citados nominalmente (Gobi, Sechura, o sertão) e outros abstratos. Por que o interesse pelo deserto?

O deserto é uma antecipação ou um desdobramento da imagem da guerra. E esse interesse é uma convicção distraída da minha relação política com a literatura, que nunca é só escrever. O que talvez pudesse chamar de uma “teoria da guerra” num contraponto às ideias de disciplina, indivíduo, valor, nação etc e, ao mesmo tempo, como uma tentativa de compor alguma participação efetiva. Por isso tento lançar meu trabalho numa imaginação expandida e crítica entre o poema e a prosa — nem poema nem prosa — e deixá-lo o mais vulnerável possível; como a vida, com nenhuma certeza. O mais perto possível do deserto, esta forma insustentável, esta “forma-formante”. Reescrever os livros tem a ver também com isso. É um pouco essa ideia de que a literatura, para mim, é um lugar móvel e quebradiço, não um monumento ou um patrimônio.

Em “A forma-formante” você apresenta Joaquim Cardozo como “referência quase esquecida do modernismo brasileiro”. Por que ele não é tão lembrado? E qual é a importância de revisitar hoje o trabalho dele?

A importância de tocar o que não é óbvio, me parece, é uma tarefa de responsabilidade constante com a arte, com a cultura etc; caso contrário reproduzimos muito imediatamente a lógica fascista do dinheiro. E diante da institucionalização corriqueira das mesmas coisas é preciso esforço para alguma surpresa. E, nesse empenho, Joaquim Cardozo é um poeta singular. Primeiro porque o poema, para ele, fazia parte de um conjunto deliberado de ações livres com a vida, como o esquecimento, por exemplo. Depois, engenheiro calculista de parte do projeto modernista da arquitetura brasileira, escreveu seus poemas e peças de teatro cruzando-os com um pensamento muito interessante entre arte, engenharia, arquitetura, matemática, física etc. Esse pequeno livro de ensaios tenta dizer o quanto Joaquim era um homem do renascimento tocado pela assombração do moderno, um homem-universo silenciado pela experiência radical do sertão nordestino. E aí, silencioso, com uma “participação ausente”, como disse o Drummond, é fácil fácil, com ele, desmontar certas coleções oficiais de nossos modernismos e seus derivados de manutenção.

Que ideia de cidade encontramos na poesia e na arquitetura de Cardozo?

Há uma constelação de ideias sobre a cidade. Num belo texto intitulado “Uma arquitetura para o homem”, para dar um só exemplo, ele traça um percurso do homem com o espaço, a partir da constituição do LUGAR, que vai desde uma contemplação utilitária do horizonte cotidiano, com Goethe, até as noções de espaço adequado para morar, de habituar-se e de habitar, da vizinhança entre espaços habitáveis, da criação da rua, da invenção da porta que possibilita e potencializa o sonho (e isto é genial na proposta dele), até o problema das favelas (“conjunto habitacional onde reina a mais complexa das vizinhanças”) e dos conjuntos habitacionais “melancolicamente uniformes” etc. Tudo isso para dizer que uma arquitetura para o homem tem que oscilar entre o espaço habitável e a vizinhança: que o primeiro é consequência do homem e o seu ato de habitar e que o segundo é a consequência do contato COM O OUTRO. A ideia de cidade, para Joaquim Cardozo, grosso modo, mesmo que ingênua, é uma invenção radical da utopia porque ele a imagina como uma solicitação do comum, sem os elementos de limitação para domínios fechados.

E que ideia de cidade você busca nos poemas de “Geografia aérea”, com “cidades moribundas” onde “tudo é buraco”, mas também onde “o que resta de amor/ e sobrevive/ salta”?

Outro dia, andando no centro do Rio, num sábado, umas oito da noite, virei na Rua Uruguaiana para tomar o metrô e cerca de 70 a 80 pessoas tentavam se acomodar para dormir, ali, na rua, entre lama, fedor, pedaços de papelão e tecido podre. Em qualquer rua de cidades como Fortaleza, Recife ou Porto Alegre o cenário se repete e o abandono é cáustico e miserável. Fortaleza, por exemplo, é uma cidade que encerrou, quase definitivamente, qualquer possibilidade para o pedestre. A dimensão insana de cidades como São Paulo, Buenos Aires ou a Cidade do México nos dá a exata ideia de um torpor social com cercas de fechamento e isolação; ou seja, nos afastamos o tempo inteiro do homem e nos postulamos principalmente e apenas diante da lei e diante do número. Há uma placa de chumbo que separa tudo e todos. E não há — me parece — qualquer esforço com as mesmas dimensões para que isto possa, de algum modo, ser revisto. Em várias cidades, nos pontos mais diversos, os abismos sociais se apresentam em cenários de guerra. E trato isso, no meu trabalho, não como um tema, mas como um imaginário que se vincula a uma prática que procuro ter com a vida, política e amorosamente. Talvez, por isso, alguma sobrevivência, salto, saliência, vinco.

(Fonte: O Globo)
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Cacá Diegues lança a autobiografia ‘Vida de cinema’

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Com 677 páginas de saudades e sonhos, “Vida de cinema — Antes, durante e depois do Cinema Novo” (Objetiva), autobiografia de Cacá Diegues que chega hoje às livrarias, jamais teria saído do papel se o diretor alagoano tivesse obedecido a um conselho de sua tia Amélia. Foi de mãos dadas a ela, quando era um menino de 5 anos, que o realizador de sucessos como “Bye bye Brasil” (1979) e “Chuvas de verão” (1978) pisou em uma sala de exibição pela primeira vez: o cine São Luiz, em Maceió. E, embora não lembre que filme viu naquele dia, o cineasta, hoje com 74 anos, nunca se esqueceu das palavras de Amélia, que ele, sabiamente, não acatou: “Não bote a mão na tela, menino, que ela fica lá presa pelo resto da vida”. A profecia se cumpriu: há 52 anos, Cacá faz da atividade cinematográfica sua profissão, tendo dirigido 36 filmes, dos quais 20 são longas. E o 21º já está em preparação: “O grande circo místico”, com Vincent Cassel e Jesuíta Barbosa.

— Levei seis anos para concluir esse livro, que é meu almanaque sobre o Brasil. Um almanaque capaz de traduzir a esperança que ainda sinto em relação ao país. Tenho imensas e numerosas queixas, mas seria impertinente não reconhecer que, nestes últimos 20 anos, o Brasil melhorou. Não tenho pessimismo. O pessimismo é conservador, porque pretende que a gente se esforce para não mudar. E, em 74 anos, mudei muito. Por isso, existem vários Cacás em “Vida de cinema”. E que bom é mudar, pois a coerência não é uma virtude artística — diz o diretor, que começa a filmar “O grande circo místico” no dia 22 de setembro, numa coprodução com Portugal e França, com locações em Lisboa e em Minas e roteiro inspirado no poema homônimo de Jorge de Lima (1895-1953), em coautoria com George Moura.

Com a cabeça ocupada pela escolha de um elenco internacional, o diretor vai se dedicar ao lançamento de “Vida de cinema” em breve. A noite de autógrafos será em 12 de agosto, às 19h, na Travessa do Leblon. Antes, no dia 1º de agosto, o cineasta participa de um debate sobre a obra na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). E, no dia seguinte, ainda na Flip, ministra uma oficina sobre linguagem cinematográfica com o documentarista João Moreira Salles. Em Paraty, Cacá vai comentar a decisão de escrever o livro substituindo capítulos por verbetes, que podem ser lidos aleatoriamente, formando um mosaico de sua memória, da história da produção audiovisual e das contradições nacionais em geral.

A publicação começa seus relatos em 19 de maio de 1940, dia em que o diretor nasceu, em Maceió. Dali, o livro segue para a mudança de sua família para o Rio, em 1946. É na cidade que ele irá vivenciar o patriotismo pela primeira vez, com dor, ao chorar a derrota do Brasil para o Uruguai na Copa de 1950, ouvindo o jogo pelo rádio. Sem melancolia e com bom humor, “Vida de cinema” relembra as peripécias de Cacá ainda menino e arranca risos ao reconstituir o dia em que ensaiou fazer uma fotonovela baseada em “Romeu e Julieta” com seus irmãos e a empregada.

— (Quando morava em Botafogo,) o morro Dona Marta dominava a paisagem. Joguei muita bola com os meninos de lá e nunca os entendi como diferentes. Com a idade, fui compreendendo que a cultura e a antropologia brasileiras eram formadas pela riqueza das misturas. Não acredito em raças, acredito em culturas e no valor da mestiçagem entre elas.

No rol de relatos de Cacá, também articulista do GLOBO, amontoam-se causos como os de sua amizade com a diva francesa Jeanne Moreau no set de “Joanna Francesa” (1973), em Maceió, e narrativas anedóticas ligadas às suas incursões boêmias pelo Beco das Garrafas. O romantismo também aparece, conforme Cacá revê seus primeiros amores e seus casamentos (com a cantora Nara Leão e a produtora Renata Almeida Magalhães, sua companheira há 33 anos). Relendo a própria história, o cineasta lembra que muitos sonhos de outrora permanecem vivos:

— Não sou contra ilusões, algumas nos ajudam a viver melhor. Se a realidade não corresponder à nossa boa ilusão, pior para a realidade. Meu sonho continua sendo fazer meus filmes e viver num país mais justo e menos miserável, com uma economia de cinema vigorosa.

Movido pelo sonho de um cinema imbuído de brasilidade, ele se tornou amigo de figuras que redefiniram a maneira de se fazer filmes no país, como o produtor Luiz Carlos Barreto e os diretores Nelson Pereira dos Santos, Joaquim Pedro de Andrade, Paulo Cezar Saraceni, Ruy Guerra e um vulcão chamado Glauber Rocha. Num parágrafo do livro, Cacá explica a influência da “alegria glauberiana”: “Segundo Nelson, respondendo a uma pergunta sobre o que era o movimento: ‘O Cinema Novo era quando Glauber chegava da Bahia’”.

— Sinto falta da convivência com os diretores do Cinema Novo e de nossos dias e noites de discussões intermináveis sobre cinema, cultura e política. Acho que nunca fui tão feliz em minha vida de cineasta. Mas não tenho saudades do Rio daquela época, tenho saudade de mim, de minha juventude, da energia que temos quando somos jovens — diz o diretor, otimista em relação à produção atual. — Quando comecei, fazíamos no Brasil dez, 12 filmes por ano. Hoje, nossa produção é de cerca de 150 filmes anuais e uma de suas principais características é a diversidade. Mas é preciso criar condições de distribuição para que esses filmes tenham presença digna no mercado.

A colagem de recordações em “Vida de cinema” de Cacá termina em 1995, quando ele relembra a produção de “Tieta do Agreste” (1996). Ficaram de fora os longas que ele lançou na Retomada, suas recentes experiências como jurado em Cannes (em 2010 e 2012), suas incursões como diretor de documentários e sua relação como produtor de jovens de periferia em “5xFavela, agora por nós mesmos” (2010). A decisão de parar em meados dos 1990 é explicada no posfácio: “A partir daí, tudo se passou há menos de 20 anos: é muito pouco tempo para se afirmar tudo o que aconteceu”.

(Fonte: O Globo)
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Jhumpa Lahiri tenta enterrar as dores do passado em ‘Aguapés’

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No romance que a escritora britânica lança na Flip, família ignora trauma sofrido para tentar seguir vivendo
Qualquer detalhe a mais que se conte sobre o enredo de Aguapés, romance de Jhumpa Lahiri que está chegando às livrarias, e a experiência do leitor estará ameaçada. E a graça do livro é descobrir, aos poucos, as reviravoltas na vida dos personagens – os fatos, os momentos, as decisões que os marcarão para sempre e que terão reflexo nas gerações futuras.
Pode-se, porém, dizer que a história se passa entre a claustrofóbica Calcutá, mais especificamente entre um bairro pobre com uma baixada que alaga depois da monção, e a paisagem costeira de Rhode Island, nos Estados Unidos, num período que se inicia nos anos 1940 e vai até os dias atuais. Aguapés é um livro sobre o amor fraternal entre Subhash e Udayan, nascidos com 15 meses de diferença numa Índia independente, sendo um a extensão do outro e melhores amigos até a juventude. O afastamento começou quando eles escolheram faculdades diferentes e passaram a conviver com outras pessoas.
Em certo momento, Udayan, o caçula destemido, resolve se engajar no movimento naxalista após ouvir, horrorizado, as notícias da revolta dos camponeses de Naxalbari, uma aldeia do distrito de Darjeeling que vivia numa espécie de sistema feudal, e que culminou com o assassinato, pela polícia, de 11 trabalhadores (8 eram mulheres). Entre seus companheiros de luta – muitos morreriam vítimas da repressão – estavam simpatizantes de Mao, Che e Fidel.
Subhash, o mais tímido e apagadinho, até acompanhou o irmão no início de militância, mas resolveu que não viveria mais à sombra de Udayan e que faria, ao menos, uma coisa sozinho – deixou, então, a família e ingressou no doutorado fora do país, caminho de tantos jovens bem formados e sem perspectiva de emprego.
A escolha política de Udayan e suas consequências seriam sentidas e remoídas para sempre pelos pais, pelo irmão, por Gauri, com quem ele se casa contra a vontade da família, e pela filha que nunca conheceu. O que se seguirá a isso será uma história familiar de abismos e falta de comunicação, de maternidade e paternidade, de violência física e emocional, de ciúmes, segredos, abandono, deslocamento e exílio em todos os seus sentidos. Uma história de amor.
Aguapés é o quarto livro da escritora que nasceu na Inglaterra, foi criada nos Estados Unidos a partir dos 2 anos e que tem raízes indianas – seus pais são nascidos lá. Mas é como se fosse o primeiro, ela conta, de Roma, onde vive há 3 anos, em entrevista por telefone, na última terça-feira. No fundo, o som das buzinas e cornetas e de seu filho insistindo para que ela fosse ver o jogo da Itália na Copa do Mundo – o time do novo país da família, que virá para a Festa Literária Internacional de Paraty (30/7 a 3/8), seria desclassificado 90 minutos depois.
“Essa história foi a primeira que concebi como um livro, mas, quando comecei a escrevê-la, vi como eu era extremamente inexperiente, sem ferramentas e perspectiva”, diz a autora nascida em 1967, ano do massacre da aldeia dos camponeses – crime que rondava as conversas que ouvia quando criança. “As pessoas comentavam a situação de Calcutá e, mesmo quando eu ia para lá nos anos 1970, o assunto ainda era muito presente. Até que eu fiquei sabendo de algo terrível que tinha acontecido perto de onde meus avós viviam: alguns garotos foram executados na frente de suas famílias. Foi aí que pensei no livro.”
Ela voltou a Calcutá uma vez durante o processo de pesquisa para conversar com os moradores. Completou o trabalho com os relatos dos familiares, com livros e filmes. Foram 16 anos entre o estalo da ideia e o lançamento da obra. Nesse meio tempo, publicou a coletânea de contos Intérprete de Males, que lhe rendeu o Pulitzer, o romance O Xará – os dois serão relançados em julho pela Biblioteca Azul, da Globo – e Terra Descansada, que está no catálogo da Companhia das Letras. O tempo de escrita de Aguapés, no entanto, durou cerca de cinco anos, recorda.
O tempo, aliás, é personagem importante deste novo romance. Acompanhamos a vida – e, em alguns casos, a sobrevida – da família durante sete décadas. Além disso, Gauri dedica-se à filosofia, e a noção de tempo na obra de vários pensadores como Platão, Descartes, Santo Agostinho e Einstein aparece aqui e ali quando o narrador nos conta sobre ela. E, no fim, o que os personagens querem é que o tempo cure suas dores. “Mas ele não cura ninguém. Se perdemos alguém, é muito difícil suportar os anos que nos restam na Terra. No entanto, continuamos vivos.
O fato de trazer a terra de seus pais para sua ficção não é, acredita, um acerto de contas com esse país abandonado por eles, onde ela nunca viveu e que, no entanto, lhe é tão familiar. “Minha infância foi rodeada pela expectativa de voltar para lá e pela frustração de não estar lá. Era uma sombra em nossas vidas e acredito que esses meus quatro livros saíram dessa sensação.” Os cheiros, os sons, a atmosfera que ela reproduz em sua obra são resgatados das lembranças das idas à Índia – muito frequentes quando ela era pequena. Mas Jhumpa sente que esse tema do indiano imigrante e dos contrastes culturais está chegando ao fim. “Ainda nos Estados Unidos, eu achava que Aguapés seria meu último livro com essa temática e estar na Itália tornou mais clara a minha relação com esses dois países. Achei que minha vida toda era um estado de tensão entre essas duas nações. Não sabia se seria leal a uma ou a outra e nem como isso se manifestaria em mim como pessoa e como escritora. Estar em um terceiro país, onde não esperam que eu me encaixe, como sempre aconteceu nos Estados Unidos, ou o país do qual esperam que eu me lembre e que deseje, no caso, a Índia, é bom. Aqui posso apenas ser uma estrangeira, e é muito simples.”
E, ainda assim, ela não está em casa. “Acredito que todo o meu trabalho venha dessa frustração de não ter um lugar para chamar de casa, mas sinto que, com o tempo, resolvi isso criando uma espécie de lugar mental. Se estou com a minha família, meus amigos, meus livros ou escrevendo, estou em casa. Eu me sinto bem em Roma e poderia viver aqui para sempre. Tenho uma grande afinidade com a cidade, mas, ainda assim, serei sempre estrangeira. Não tenho a ilusão de chegar a um lugar e ninguém me perguntar de onde eu venho.”
Jhumpa não sabe explicar por que escolheu a Itália. Conta que quis, sem motivo, estudar a língua e, de repente, sentiu a necessidade de deixar para trás o que lhe era familiar e viver lá – uma mudança que seria importante também para os filhos, de 9 e 12 anos. “Eu achava que eles, nascidos e criados em Nova York, precisavam entender o significado de ser estrangeiro.”

(Fonte: O Estadão)

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