NOVEMBRO – 2014

‘The wire’, a série que conquistou as ciências sociais

Cena de “The Wire”: série usa realismo para representar conflitos entre policiais e traficantes

Cena de “The Wire”: série usa realismo para representar conflitos entre policiais e traficantes

Coletânea de artigos científicos mostra por que a criação de David Simon é maciçamente estudada por sociólogos, cientistas políticos e urbanistas

Considerada por muitos a melhor série de todos os tempos (é a preferida do presidente Barack Obama), “The wire” atingiu um status inédito para a categoria. Encerrada em 2008, após cinco temporadas no canal a cabo HBO, não apenas conquistou uma legião de admiradores como se tornou uma espécie de menina dos olhos das ciências sociais. Ao representar os conflitos entre a polícia de Baltimore e os criminosos da cidade, a trama oferece uma lente de aumento da realidade americana — e realiza, através da ficção, uma autópsia dos fracassos das instituições cívicas, políticas e educacionais. Pesquisadores de todas as áreas se interessaram pela maneira como os criadores da série, o jornalista David Simon e o ex-policial Ed Burns, destrincharam o complexo funcionamento do tráfico de drogas, das forças policiais, do judiciário e da mídia. Um dos mais influentes sociólogos americanos, William Julius Wilson, definiu a obra como “a maior etnografia jamais produzida” sobre os Estados Unidos contemporâneo. Outra socióloga, a também americana Ruth Penfold-Mounce, chegou a cunhar a expressão “social science fiction” (ficção das ciências sociais) para enfatizar sua intensa relação com as ciências sociais.

Seis anos após seu derradeiro episódio ir ao ar, “The wire” continua ecoando no imaginário acadêmico. Uma busca bibliográfica do centro de pesquisas da Universidade de York menciona mais de 100 referências diretas à série, que nos últimos anos virou tema de ensaios, colóquios, cursos e seminários em universidades como Harvard, Maryland e Nanterre. Uma nova prova deste interesse está no livro “The wire — L’Amérique sur écoute” (Editora La Découverte), recém-lançado na França e ainda inédito no Brasil. Reunindo textos de pesquisadores europeus e americanos de diversos campos — da sociologia ao urbanismo, passando pela antropologia e a política —, a publicação oferece uma análise pluridisciplinar dos mecanismos sociais da série.

— Podemos ver “The wire” como uma ficção das ciências sociais na medida em que ela explora a imaginação sociológica dos espectadores — diz a socióloga e urbanista Marie-Hélène Bacqué, organizadora do livro, em entrevista por e-mail. — A série é usada como um complemento nos cursos das universidades, pois pemite entrar, através da ficção, em um mundo social estranho à maioria dos estudantes. Trata-se de uma ferramenta pedagógica fora do comum, que mostrou as transformações das cidades pós-fordistas, as consequências das desigualdades urbanas e raciais, e a implementação das políticas urbanas.

Inovadora e densa, “The wire” não foi um sucesso instantâneo. Desde a sua estreia, a série enfrentou fracos índices de audiência (“Os únicos espectadores eram os moradores de bairros carentes e alguns advogados que tomavam notas”, brincou em uma entrevista o ator Dominique West, que faz o papel do detetive McNulty); o próprio David Simon considera um milagre ter conseguido completar cinco temporadas. Graças à internet e à cultura do donwload, porém, o programa encontrou um novo público, que hoje cultua seus personagens e sabe de cor alguns de seus bordões e diálogos emblemáticos.

Os pesquisadores de “The wire — L’Amérique sur écoute” buscam entender o sucesso da série e sua influência na sociedade, analisando-a não apenas como produto televisivo, mas também como mensagem social. Defendem, por exemplo, o realismo rigoroso e a multiplicidade de detalhes (cada temporada se concentra em um setor diferente da cidade: a polícia, o sindicato, a prefeitura, o sistema educacional e a imprensa) como uma posição política para denunciar as desigualdades sistêmicas e os impasses urbanos (vale lembrar que as cinco temporadas foram ao ar entre 2002 e 2008, período em que os Estados Unidos alcançaram sua maior concentração de renda desde 1929). Outros elogiam a ambição do seu projeto narrativo e estético — um “ensaio sociológico em escala real” —, um logos que mostra as mazelas atuais, mas também as explicam (“O logos é essa capacidade de se apropriar de um mundo que escapa, de torná-lo inteligente”, explica um dos textos da edição).

O assunto mais abordado ao longo do livro, porém, é o niilismo da série. Como observa o cientista político Fabien Desange, o disfuncionamento das instituições e a perversidade do sistema alimentam uma injustiça cíclica: presos nessas engrenagens, os jogadores nunca conseguem trocar de posição (não por acaso, o próprio David Simon reivindicou uma aproximação maior com a tragédia grega do que com a narrativa policial). Esse olhar pessimista da sociedade provocou uma divisão no mundo universitário. Os defensores acreditam que ela ajudou a denunciar as condições precárias das camadas pobres do país — até então invisíveis na maioria dos programas de TV — , estimulando uma mobilização. Já os detratores acusam “The wire” de fazer uma representação parcial e estilizada do gueto, que ocultaria as formas de luta e de organização coletiva existentes nesses lugares. Ao se impor como uma fábula cínica e determinista (uma das frases mais famosas do programa é “Por que esta merda nunca muda?”), seus criadores estariam aniquilando de antemão qualquer possibilidade de reação.

— Essa crítica me parece justificada, mesmo sabendo que a escolha pelo pessimismo responde à vontade de fortalecer o lado demonstrativo da série — pontua Marie-Hélène. — Creio que a série também deixa de representar os “indivíduos comuns” que moram nos guetos, pois nem todos os seus moradores são traficantes, policiais ou agentes de instituições.

(Fonte: O Globo)

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Descaracterização do Rio é tema de novos romances

Conjunto de prédios na Selva de Pedras, Leblon: bolha imobiliária é tema central de ‘A casa cai’, novo romance de Marcelo Backes

Conjunto de prédios na Selva de Pedras, Leblon: bolha imobiliária é tema central de ‘A casa cai’, novo romance de Marcelo Backes

‘A casa cai’, quarto romance de Marcelo Backes, é a mais recente de uma série de ficções que abordam as transformações urbanas da cidade

Transformações urbanas sempre foram uma fonte inesgotável de boas histórias. No momento em que a paisagem do Rio vive uma de suas maiores reconfigurações, com a herança da Copa do Mundo no retrovisor e as Olimpíadas no horizonte, a literatura nacional começa a se interessar pelo custo econômico e social das mudanças. Lançado em outubro, “A casa cai”, quarto romance de Marcelo Backes, é um exemplo recente dessa nova produção, que promete explorar temas como gentrificação, especulação e descaracterização. Ao mesmo tempo em que retrata o desmoronamento afetivo de uma família, o autor faz um panorama da explosão imobiliária do Rio, exibindo uma cidade revolvida por desmontes.

— É curioso, mas quando tive a ideia de escrever o livro e até quase o momento de entregar os originais, o debate sobre as mudanças urbanas do Rio ainda não havia atingido a esfera pública. Eram questões que jorravam no subsolo — conta Backes, que também é tradutor e professor na Casa do Saber O GLOBO. — A inspiração surgiu quando me mudei para o Rio, em meados de 2007. Não conhecia nada da cidade e andava pelo Leblon intrigado. Estranhava o significado da Selva de Pedra e tentava entender porque não havia sobrado nada horizontal. Queria escrever sobre um indivíduo que resolve construir uma casa em uma época em que não se constroem mais casas, e em que não se serve mais chá para ninguém.

Em “A casa cai”, o Rio é um imenso canteiro de obras. A esfera íntima dos personagens cruza a história pública, e o destino de cada um está inexoravelmente ligado ao sobe e desce das edificações. Ao receber uma herança indesejada, o protagonista é obrigado a administrar o patrimônio do seu pai, que esconde zonas de sombra, como a eliminação de comunidades pobres da Zona Sul. Seminarista que passou a vida fugindo do ambicioso e inescrupuloso empreendedorismo paterno, ele decide reformar uma moradia modesta na Selva de Pedra, em vez de optar por um espaço mais nobre. Logo descobre, porém, que o lugar escolhido foi construído sobre os escombros da Praia do Pinto, favela removida pelo governo no final dos anos 60. Por mais que tente, o personagem não consegue escapar à lógica perversa que ajudou a gerar a fortuna familiar.

Se em seu romance anterior, “Último minuto” (Companhia das Letras), Backes usava o futebol como um símbolo para entender o Brasil , aqui ele faz um paralelo entre o mundo das artes plásticas e o do mercado imobiliário. Ao visitar uma mostra contemporânea, o personagem se depara com obras artísticas que mais parecem “entranhas expostas em azulejos cortados, rasgados, sangue e vísceras saindo das paredes conhecidas de uma casa” — metáfora da cidade eviscerada pelas construções. Uma relação que, além de estética, também é econômica.

— O universo das artes sintetiza o caráter evasivo da especulação imobiliária: o que faz com que uma menina de 25 anos, em sua primeira exposição numa galeria, venda uma tela por R$ 25 mi? O que explica isso? — questiona Backes. — Da mesma forma, houve um aumento de 300 por cento nos imóveis desde 2009. Só uma obra de arte valoriza tanto em tão pouco tempo.

Outros livros recém-publicados, ou ainda em preparação, também abordam direta ou indiretamente a nova realidade urbana e socioeconômica do Rio. Lançado em julho, “A vez de morrer” (Companhia das Letras), de Simone Campos, tem como protagonista uma jovem que se muda para a Serra para fugir dos altos preços do aluguel na cidade — o fantasma da vida cara, aliás, paira o tempo todo sobre os personagens. Como consequência, a pequena cidade do interior recebe uma onda de “forasteiros”, provocando uma modernização forçada que altera os hábitos e costumes locais.

Finalista do Prêmio Jabuti com o romance “Glória”, Victor Heringer é outro que deverá tocar no tema em seu próximo livro, “O amor dos homens avulsos”. A história mostra, entre outras coisas, as transformações de um bairro fictício entre o Andaraí e o Engenho Novo, na Zona Norte do Rio: “Esta cidade sofre de uma febre que de tempos em tempos causa essas alucinações de belepóque”, descreve Victor, em uma parte do livro, que ainda não tem data de lançamento. “Bota abaixo, vamos começar tudo de novo! É o parasita modernizador, a malária de Miami, que antes foi malária de Paris. No delírio passado, arrancaram uma montanha da paisagem para enterrar um pedaço de mar, higienizaram tudo. No próximo, não duvido, vão higienizar de vez os cariocas”.

Morando em Porto Alegre desde 1997, Alexandre Rodrigues relembra suas origens no Rio suburbano no ainda inédito romance “Baioneta”. A cidade é quase um personagem do livro; em determinado momento, o protagonista percebe como a paisagem do subúrbio se transformou nos últimos 30 anos.

— Hoje se vê a gentrificação não só em torno de obras da Copa e das Olimpíadas, mas numa faixa da Zona Norte, cuja paisagem está mudando de forma súbita— diz Rodrigues, autor do elogiado “Veja se você responde essa pergunta” (Não editora). — São grandes condomínios surgindo em volta de shoppings. As pessoas aceitam como se fosse uma última cartada. Comparado com o abandono em que estavam essas regiões, isso pode ser visto como uma coisa boa. Mas é uma mudança de paisagem que mantém o status quo social e econômico.

Ficcionalizar este momento histórico é um desafio para escritores. Por exigir em geral um processo mais longo do que documentários, peças ou exposições, os livros nem sempre chegam acompanhando o calor dos acontecimentos.

— A literatura tem esse interesse de lidar com a História quando a História já virou história — avalia Rodrigues. — Escrever é tão trabalhoso que o autor muitas vezes acaba sendo naturalmente atropelado pelos desdobramentos. Ao mesmo tempo, como podem levar meses ou anos para serem terminados, os livros também oferecem um recuo maior. Estou escrevendo um romance sobre as manifestações de junho de 2013, que ainda não tem data para sair. Mas se eu o tivesse terminado apenas dois meses depois dos fatos, talvez perdesse o epílogo da história, que são as eleições. Da mesma forma, é possível que o epílogo desse momento sobre a especulação seja a Olimpíada. Ou talvez os jogos sejam o verdadeiro começo da história. Só esperando até lá para saber.

A descaracterização do Rio deveria ser o tema central do novo romance de João Paulo Cuenca; o autor, contudo, foi ultrapassado pela vida real. Publicado na edição da revista “Granta” dedicada aos jovens escritores brasileiros em 2011, o conto “Antes da queda” estava sendo pensado como o trecho de um romance sobre o assunto. O problema é que algumas das previsões extraordinárias narradas na trama, que se passava muitos anos no futuro, acabaram se concretizando — e se banalizando — antes mesmo do livro ser terminado. O autor previa, por exemplo, uma “invasão” francesa no Vidigal para daqui a 20 anos — algo que se tornou realidade já em 2013. Por causa desses anacronismos, o tema da especulação imobiliária deverá entrar apenas como uma curiosidade metalinguística em outro projeto, o romance e filme “A morte de J.P. Cuenca”, previstos para 2015.

— É impossível não olharmos para essa crise de identidade do Rio — diz Cuenca. — São transformações radicais, no coração da cidade, que escancaram as entranhas dela. Mas acho que ainda é um tema pouco explorado pelo cinema, pelas artes plásticas ou pelos livros. Quando dou oficinas, especialmente em eventos como a Festa Literária das Periferias (Flupp), tento estimular os alunos a escrever sobre isso. Porque as pessoas que estão no centro deste drama, que sofrem com as remoções, não falam. E, quando outros falam sobre o assunto, não falam sobre elas. Estou esperando outro Lima Barreto como quem espera São Sebastião.

(Fonte: O Globo)

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David Harvey: ‘O que os muitos dados reunidos por Piketty fazem é sugerir que Marx está certo’

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Geógrafo marxista, um dos principais intelectuais da esquerda, esteve no Brasil no início do mês para palestras

Um dos principais intelectuais da esquerda hoje, o geógrafo britânico David Harvey terminou na semana passada uma maratona de eventos no Brasil, visitando cinco cidades em seis dias. No Recife, conheceu o movimento Ocupe Estelita, que se opõe ao projeto de construção de 12 torres residenciais no antigo Cais José Estelita. Em Fortaleza, falou para mais de 3 mil na Concha Acústica da Universidade Federal do Ceará (UFC). Já em São Paulo, antes de dar uma palestra no Centro Cultural São Paulo, Harvey teve um encontro com o prefeito Fernando Haddad.

Em entrevista ao GLOBO, por telefone, de Curitiba, pouco antes de sair para a penúltima palestra no país, o geógrafo falou sobre os seus dois últimos livros lançados no Brasil: “Cidades rebeldes” (Martins Fontes) e “Para entender O Capital: Livros II e III” (Boitempo). O primeiro, dividido em duas partes, discute as origens e o conceito do chamado direito à cidade e os protestos que ocuparam as ruas de Londres e Nova York, em 2011. Já “Para ler…” é a segunda e última parte do guia de leitura da principal obra de Karl Marx sobre o funcionamento do capitalismo. No ano passado, a Boitempo publicou “Para ler O Capital: Livro I”.

Por que os livros II e III de “O Capital”, de Karl Marx, são menos lidos do que o livro I?

A resposta é simples: Marx nunca terminou esses livros. Deixou apenas rascunhos desses dois livros, que foram terminados por Engels. Há muitas controvérsias sobre a qualidade do trabalho de Engels, mas pessoalmente acho que foi um enorme e monumental ato de amor editar os manuscritos. E, ao contrário do livro I, que é uma bela obra de literatura, os livros II e III não são.

No seu guia de leitura, o senhor mistura capítulos dos dois livros. Por quê?

Há várias razões. Uma delas é que Marx fez uma explicação extremamente técnica da circulação de mercadorias no livro II, mas não fala das pessoas que participam deste processo. Isso ele fará no livro III. Então, pensei que seria mais interessante juntar os aspectos técnicos da circulação e os interesses de banqueiros, financistas, etc. A segunda razão é que, dados os eventos de 2007 e 2008 no mundo das finanças, seria melhor para os leitores verem como Marx via as duas coisas, tanto os aspectos técnicos da circulação quanto a atuação dos agentes econômicos. E, a partir daí, abrir uma possibilidade de compreensão sobre o que aconteceu na crise financeira recente.

O livro do economista francês Thomas Piketty, “O capital no século XXI”, teve bastante repercussão recentemente. A que o senhor atribuir esse sucesso?

Primeiro, é preciso deixar claro que o livro de Piketty não é sobre o capitalismo. Ao lê-lo, você não vai ter a menor ideia do que levou às crises de 2007 e 2008. Sua obra é sobre a produção da desigualdade social no capitalismo. O que ele faz é mostrar que há uma tendência de níveis cada vez mais maiores de desigualdade social se nada for feito. Essa é uma das principais teses de Marx no livro I de “O Capital”: o capitalismo de livre-mercado de fato não beneficia a todos, mas sim os super ricos e empobrece a massa da população. De certa maneira, o que os muitos dados reunidos por Piketty fazem é sugerir que Marx está certo.

O senhor começou a ler “O Capital” quando fazia um trabalho sobre o problema habitacional em Baltimore, nos Estados Unidos. Como Marx nos ajuda a compreender a crise das cidades hoje?

O que eu tento fazer é uma conexão entre como a teoria de Marx compreende as contradições do capitalismo e as contradições que existem nos processos de urbanização, que sempre geram tensões na vida nas cidades. Nos últimos anos, em particular, foi fascinante ver como esses estresses da vida urbana produziram grandes irrupções em cidades do Brasil e da Turquia. Foi um profundo descontentamento com as coisas que não funcionam nas cidades que está gerando esses movimentos de protesto.

No Rio, os preços dos imóveis começaram a subir aceleradamente a partir de 2007, quando começa a crise financeira. Há uma relação entre as duas coisas?

É interessante que a crise financeira tenha eclodido nos Estados Unidos a partir da crise habitacional no sul da Califórnia, no Arizona e na Flórida. As origens das crises de 2007 e 2008 estão nos processos de urbanização. Nos EUA, o mercado habitacional tem um papel crucial para gerar crises e para solucioná-las. A partir da crise financeira, o que se observa é um movimento dos capitalistas em direção à especulação imobiliária. O aumento do preço dos imóveis não ocorreu apenas no Rio de Janeiro. Você vê o mesmo fenômeno em Londres, Nova York, Istambul. Um aumento de preços a um nível que metade da população não consegue mais viver nessas cidades.

As ruas foram o lugar por excelência dos protestos nos últimos anos em todo mundo. Por quê?

A sensação é que o grande capital controla o que acontece nas cidades e as pessoas têm muito pouco a dizer sobre o que está acontecendo. Nas cidades, o dinheiro tem sido usado para gerar mais dinheiro através do aumento dos aluguéis, da especulação imobiliária, de todo tipo de jogadas financeiras. As pessoas veem todo o sistema como ilegítimo, na medida em que ele não olha para as suas necessidades. Há uma sensação de que a política não está funcionando, a democracia não está funcionando, a economia não está funcionando.

(Fonte: O Globo)

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Em ‘Epifanias domésticas’, fotografias antigas inspiram Pedro Afonso Vasquez

A fotografia “A mulher mais gorda do mundo”, de autor desconhecido, está no livro de Bruce Bernard que inspirou Vasquez

A fotografia “A mulher mais gorda do mundo”, de autor desconhecido, está no livro de Bruce Bernard que inspirou Vasquez

Romance fragmentado, poético e perfeccionista parte dos retratos reunidos em livro por Bruce Bernard

A editora veicula “Epifanias domésticas” como um romance, mas talvez seja o caso de refletirmos um pouco sobre este gênero literário antes de o considerarmos como tal. O romance moderno, uma narrativa longa em que várias ações de diferentes personagens são desenvolvidas paralelamente, foi estabelecido em meados do século XIX por Balzac, Stendhal e Dickens. Stendhal, por exemplo, dizia que ele é um espelho que se carrega ao longo de uma estrada. Assim podemos pensar que um romance reflete a realidade e o momento históricos em que vive o autor, além de preocupações estéticas e ideológicas que permeiam seu texto, desenrolando-se ao longo de uma ou mais unidades de tempo. No romance moderno não existe mais a tentativa de contar uma história e nem se obedece a uma ordem cronológica: passado, presente e futuro se fundem.

A fusão de tempos diferentes está presente em “Epifanias domésticas”, mas na realidade a obra é mais uma compilação de fragmentos escritos a partir das fotografias do livro “Photodiscovery: a century of extraordinary images, 1840-1940”, do fotógrafo e pesquisador inglês Bruce Bernard. Fortemente sensibilizado pelas imagens, Pedro Afonso Vasquez (autor de 24 livros que tratam de artes plásticas, cartofilia, literatura e, principalmente da história da fotografia no Brasil, um dos responsáveis pela criação do Instituto Nacional de Fotografia da Funarte) desenvolveu um trabalho de criação detalhado, poético e perfeccionista que, como ele próprio diz, pretende transcrever em palavras aquilo que havia sido escrito em imagens.

PALAVRAS QUE FAZEM VIAJAR

No livro de Vasquez não há propriamente um enredo, mas um personagem central: uma mulher de cerca de 40 anos, que se debruça sobre uma caixa em que guarda fotografias antigas, enquanto revê episódios esparsos e recordações de suas vivências. No primeiro texto, “Homens”, ela trata do que considera “toda a gama de possibilidades masculinas, das mais nobres às mais mesquinhas”, para concluir que a melancolia que enxerga nos seres masculinos é incutida neles pelos papeis que desempenham. Já ao tratar de sua amizade com uma mulher, a protagonista derrama “no escuro as lágrimas que a amiga não derramara por si própria”.

Neste ponto chegamos ao que Vasquez pode nos oferecer de melhor. São descrições como esta: “colares semelhantes desciam em ondas voluptuosas sobre os seios firmes, de mamilos sombrios perolados de suor e protegidos por camadas superpostas de tecidos finos de padrões diferentes, indo dos motivos florais aos geométricos”. Aqui, as palavras nos fazem viajar e importa pouco saber quais fotografias as inspiraram. No momento em que a palavra escrita se descola das imagens que a geraram e passa a valer por si, “Epifanias domésticas” se torna mais interessante. É quase como se estivéssemos diante de um livro de esboços, algo como os estudos que os artistas plásticos costumam fazer para construir uma obra maior, ou mesmo de pequenos minúsculos núcleos de futuros ensaios. Já em outros títulos, como, por exemplo, “Os viajantes”, “Dois poetas lascivos e politizados” e “O sacrifício do artista”, as promessas não se cumprem. É como se já soubéssemos o que vamos ler ou se entrássemos em contato com conceitos e situações muito repetidas. Os fragmentos tratam de temas como os dois lados de um rio, a dor da partida, a solidão, personagens marginalizados, lugares distantes e exóticos, o mistério da luz, o desespero e muitas vezes tomam caminhos diferentes: a protagonista desaparece e o leitor pode até nem se lembrar que ela existiu.

No título final, “O abrigo”, a mulher fecha os olhos devagar e deixa que a realidade ao redor a invada na tentativa de reter nas retinas e no coração o seu lugar de origem. Um misterioso bilhete sobre o aparador da sala é uma sugestão de viagem que nos intriga e remete, de alguma forma, ao sentido descrito pelo escritor turco Orhan Pamuk numa conferência na Universidade de Harvard, publicada no Brasil no livro “O romancista ingênuo e o sentimental” (Companhia das Letras), na qual ele afirma que o romance, além de retratar o mundo, também descreve as sensações produzidas por nossos sentidos da visão, do olfato, da audição, do paladar e do tato. Segundo Pamuk, “escrever um romance equivale a pintar com palavras e ler um romance equivale a visualizar imagens por meio de palavras de outra pessoa”.

(Fonte: O Globo)

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Elza Ibrahim lança um olhar sobre a penalização da loucura nos manicômios judiciários

052014

Obra analisa o funcionamento dos espaços e as condutas de psiquiatras, juízes e promotores

Em “Na Colônia Penal”, escrita em 1914, Franz Kafka elegeu como personagem central de sua novela o “aparelho” destinado à execução da pena imposta ao prisioneiro, a máquina responsável por inscrever a sentença na pele do condenado até provocar a sua morte. Mais importante do que o oficial (que é, ao mesmo tempo, juiz e carrasco), do que o visitante (com seu olhar crítico), do que o prisioneiro, do que o comandante da Colônia ou o crime que se queria punir (no caso, uma conduta insignificante), o elemento principal é o dispositivo capaz de estigmatizar e matar. Em “Manicômio Judiciário: da memória interrompida ao silêncio da loucura”, de Elza Ibrahim, os loucos e os atores estatais envolvidos (psiquiatras, psicólogos, juízes, promotores de justiça etc) são objetos de atenção, mas as luzes estão lançadas sobre o manicômio judiciário, espaço de referências “científicas” (“racionalidade” também entendidas como dominação e ideologia), mecanismos de ação e funções políticas, local da contradição inafastável entre tratar e punir.

No livro, Elza dá corpo ao mal-estar de todos aqueles que conhecem o funcionamento das instituições que massacram subjetividades. Não é de hoje que se sabe que o comportamento dos loucos em instituições fechadas diz mais de sua condição de internado do que de seu quadro mental. A partir da “experiência nua” adquirida em quase três décadas de atuação em instituição psiquiátrica penal, a autora desvela os mecanismos de controle que atingem essa parcela dos indesejáveis à sociedade capitalista, aqueles que recebem o duplo estigma de delinquentes e loucos.

Com a adoção do referencial teórico foucaultiano e após criteriosa revisão da literatura sobre o assunto, construiu-se uma narrativa clara capaz de focar no poder, exercido tanto por aqueles que selecionam as pessoas que vão receber a etiqueta de “doentes mentais” como por quem trabalha nas instituições psiquiátricas-penais, como chave interpretativa para compreender o modo singular (e perverso) dos processos de dominação que se dão no manicômio judiciário. Impossível, com a leitura, não se chocar com a constatação de que juízes de direito, promotores de justiça, psiquiatras, psicólogos e demais envolvidos com o processo de tratamento naquele espaço aderem à burocracia, seguem normas inexplicáveis e naturalizam a opressão exercida contra pessoas que o saber médico classifica como inimputáveis.

Elza convida o leitor a superar o senso comum, como se o levasse a visitar o Manicômio Judiciário do Rio de Janeiro, a conhecer a estrutura física e geográfica em que pessoas acabam, por vezes, esquecidas, e a questionar o estatuto das normatizações e burocratizações que condicionam as atuações de todos os envolvidos. Em sua obra, são expostas a estrutura, a natureza e as micropolíticas desse ambiente em que seres humanos são internados. O leitor conhecerá a importância da construção social “doença mental” para a ciência psiquiátrica e os discursos que levaram ao prestígio da psiquiatria positivista e daqueles “médicos-juízes” capazes de revelar a periculosidade de indivíduos a partir da ciência, mas que na verdade escondiam exercícios de futurologia.

O ponto culminante do livro é o momento em que a autora dá voz aos excluídos que sequer têm direito a uma pena limitada no tempo: os loucos. Perceber a ruptura do silêncio dos sujeitados, por si só, vale a leitura. Em seus relatos, os loucos produzem também atos de resistência ao poder que os oprime.

(Fonte: O Globo)

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‘Grande sertão: veredas’ ganha adaptação em quadrinhos com edição de luxo

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Com tiragem de 7 mil exemplares, versão em HQ tenta expressar em imagens a ambiguidade do clássico da literatura brasileira

O diabo na casa, no meio da escrivaninha. O Cão, o Sete Peles, o Cramulhão, o Pé de Bode, o Coisa Ruim, o Capiroto — pausa para respirar, porque são muitos os nomes do Tinhoso — quis que o artista plástico e cineasta Eloar Guazzelli caísse em tentação. A tentação era, diante da devoção a “Grande sertão: veredas”, não conseguir cortar o texto do romance para que ele coubesse na adaptação em quadrinhos do clássico de Guimarães Rosa. Guazzelli precisou pegar o Capeta pelos chifres.

O artista é responsável pelo roteiro da versão em HQ de “Grande sertão: veredas”, ilustrada por Rodrigo Rosa, que a Globo Livros lança em edição de colecionador e numerada (são 7 mil exemplares de tiragem). O livro, que começa a chegar às prateleiras hoje, será vendido pela Livraria Cultura, por conta de um acordo de exclusividade entre a rede livreira e a editora. A ideia é que em algum momento, porém, uma edição comercial seja lançada.

— É um inferno. A narrativa de um roteiro é baseada no gesto brutal do corte. Fui tentado pelo demo a não cortar, mas me orgulho de ter feito essa travessia — ri Guazzelli. — Quando a gente se refere a cortar um texto como “Grande sertão: veredas”, a coisa fica mais difícil.

O pecado capital, diz ele, seria não alcançar a fidelidade à obra de Rosa. Mas a linguagem dos quadrinhos é diferente. Por isso, Guazelli, que fez roteiro e storyboard da adaptação, precisou trabalhar sobre a história do jagunço Riobaldo, protagonista do livro.

Na obra original — famosa por sua prosa poética, de sintaxe inovadora —, a narrativa é pontuada por idas e vindas no tempo, além de pausas nas quais Riobaldo reflete sobre questões que lhe interessam: a existência ou não do diabo, a religião, o mal, a guerra, o amor, a vingança, entre outros. Na adaptação, porém, o leitor vai encontrar a cronologia em ordem. Por isso, a cena famosa, em que Riobaldo e Diadorim se conhecem, ainda crianças, está quase no começo do livro.

— “Grande sertão…” tem uma estrutura que lembra romances como “Dom Quixote”, com uma história dentro da história dentro da história… Li e reli várias vezes, foi um trabalho braçal grande. Mas quis manter o poeta Guimarães Rosa. Não à toa, a versão em quadrinhos usa o próprio texto do romance — diz Guazzelli, que já adaptou também obras como “O pagador de promessas”, “Escrava Isaura” e “O bem amado”.

Quem teve também teve de lidar com um desafio grande foi Rodrigo Rosa, o ilustrador. Como representar em imagem um livro que usa a ambivalência como recurso literário, num jogo de ocultamento? O exemplo mais famoso dessa ambiguidade é o “jagunço” Diadorim, que na verdade é mulher. Riobaldo se apaixona por ela, mas não segue adiante porque acredita ser ela homem. Tudo bem que a essa altura do campeonato muita gente já conhece o mistério da personagem, mas Rodrigo buscou um traço andrógino para ela — sem revelar de cara seu segredo.

— Foi uma das coisas mais difíceis de desenhar, acho que fizemos seis versões. Tive cuidado para não ficar a cara da Bruna Lombardi — diz Rodrigo, em referência à atriz que interpretou Diadorim na versão televisiva do romance, em 1985.

Outro momento difícil de transformar em imagem é o suposto pacto que Riobaldo faz com o diabo. Afinal, o personagem conta sua história de vida a um interlocutor a fim de convencê-lo — e convencer a si mesmo — de que o demônio não existe. Assim, nem ele tem certeza se o pacto foi feito.

— Como no livro o pacto não é claro, tentei passar essa dúvida. Mostro Riobaldo na encruzilhada e o desenho vai ficando com um traço mais surrealista, como se fosse um estado de loucura — observa Rodrigo, que trabalhou na adaptação de “Os sertões”.

Perguntado se a ideia é criar um jeito de introduzir novos leitores à obra de Guimarães Rosa, Eloar Guazzelli diz não gostar dessa definição. A ideia, diz, não é reproduzir “Grande sertão: veredas”, mas representá-lo.

— Poderíamos usar 600 a mil páginas e não ficaria bom. O mapa não reproduz a terra, mas a representa — diz Guazzelli. — O livro é pontuado pela ideia de travessia, que tem muito a ver com o fazer artístico. O sertão é também a página em branco.

SERVIÇO

“‘Grande sertão: veredas’ em quadrinhos'”

Autor: João Guimarães Rosa

Roteiro: Eloar Guazzelli

Publicidade

Arte: Rodrigo Rosa

Editora: Biblioteca Azul (Globo Livros)

Quanto: R$ 199,90

(Fonte: O Globo)

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Flip 2015 acontece entre 1º e 5 de julho

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Ainda sem confirmações para a edição, Casa Azul fará em dezembro debates e exposição sobre a memória de Paraty

A Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2015 acontecerá entre 1º e 5 de julho. A Casa Azul confirmou as datas na manhã desta sexta-feira a informação, mas ainda não possui detalhes sobre a programação e quem será a personalidade homenageada.

De acordo com a Casa Azul, que gere o evento, a principal novidade de 2014 — a gratuidade do show de abertura e nos telões externos dos debates — continua para esta edição. Além disso, haverá um intercâmbio de residências literárias de tradutores do Brasil e do Reino Unido, que participarão também das mesas.

No mês que vem, um ciclo de debates e exibições curados por Paulo Werneck promoverão um resgate da memória oral de Paraty, de antes da construção da rodovia Rio-Santos. Entre 4 e 6 de dezembro, acadêmicos, locais e artistas se reunirão na Casa de Cultura de Paraty, no antigo Cinema da Matriz e ao ar livre no Centro Histórico da cidade para debater e expôr obras audiovisuais.

A Histórias e Ofícios do Território, que vai até março, inaugura também o Museu do Território de Paraty. Entre os debates, falarão o artista plástico Paulo Pasta e o sociólogo Carlos Alberto Dória.

Neste ano, a Flip teve uma programação excepcionalmente tardia por conta do cronograma da Copa do Mundo. O festival foi de 27 de julho e 3 de agosto, juntando cerca de 25 mil pessoas em Paraty.

(Fonte: O Globo)

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Araquém Alcântara exibe fotos de sua peregrinação pelo interior do Brasil

Dão Sujo. Personagem de Montes Clarinhos, em Minas

Dão Sujo. Personagem de Montes Clarinhos, em Minas

Livro do autor, ‘Veredas’, inaugura a Galeria de Babel, em São Paulo

Foram dez viagens nos últimos dois anos, a última delas com quase 10 mil quilômetros percorridos em três semanas. Tudo para registrar a vida dura do sertanejo e paisagens monumentais em lugares com nomes inusitados como Serra das Confusões e Vão das Almas, que o premiado fotógrafo Araquém Alcântara transferiu para o livro Veredas, cujo lançamento, neste sábado, 29, inaugura o novo espaço da Galeria de Babel, que comemora 15 anos. O curador Eder Chiodetto selecionou 15 imagens do livro que estarão expostas na galeria até o fim de janeiro, todas em preto e branco e impressas em quadritone – tom terroso, que traça uma correspondência analógica com a aridez das terras do sem-fim registradas por Alcântara.

Fotógrafo veterano que teve seu livro Amazônia recentemente lançado em Paris pela editora La Martinière – junto ao filme homônimo de Thierry Ragober, do qual foi consultor –, Alcântara começou sua carreira como fotojornalista. Sua ambição como profissional era fotografar regiões remotas do Brasil – e foram justamente esses lugares que o tornaram conhecido. A paisagem e os bichos da Amazônia, a beleza dos parques nacionais e os dramáticos retratos dos habitantes do sertão já renderam 48 livros produzidos nos 45 anos de carreira desse catarinense desde que, ainda estudante de jornalismo em Santos, nos anos 1970, fotografou a vida dos proscritos do cais do porto e da população marginalizada dos mangues.

Agora, com o livro Veredas, publicado pela editora do autor, Terra Brasil, Alcântara pretende dar visibilidade a aspectos pouco explorados, como a situação das unidades de conservação do Brasil, entre elas os parques nacionais da Chapada das Mesas em Carolina (Maranhão) e o da Serra das Confusões, em Caracol, no sudoeste piauiense, com suas cavernas e grutas. “Ele tem esse nome porque a areia branca confundia os caminhos dos tropeiros que passavam por lá”, diz o fotógrafo, definindo como uma “epifania” o primeiro contato com as formações cônicas do parque do Piauí, que lembram as da Capadócia, na Turquia.

Leitor de Guimarães Rosa, ele presta em seu livro um tributo ao escritor, fotografando o Parque Nacional Grande Sertão Veredas, na Chapada Gaúcha, na divisa entre os Estados de Minas Gerais e Bahia, onde o desmatamento ameaça os buritis e os ipê amarelos. Sua indignação diante da destruição da natureza no Brasil está registrada em imagens chocantes de queimadas como a do Parque Nacional da Chapada das Mesas, no Maranhão, um santuário ameaçado pelo avanço das carvoarias e empresas agropecuárias.

Alcântara encara o registro dessas regiões sob risco – a Amazônia incluída – como um gesto missionário para salvar a natureza remanescente, ameaçada por queimadas e pela ação predatória de grandes conglomerados. “Meu próximo projeto, cujo título provisório é O Livro do Fogo, vai tratar justamente da destruição da mata, mostrando imagens chocantes de animais queimados.” Ele não entende como parques nacionais como os anteriormente citados, com grande potencial turístico, são abandonados à própria sorte. “Não conseguimos entender a Amazônia, e também por isso, acredito, devo registrar essas imagens para que as pessoas tomem consciência da situação que ameaça o Brasil inteiro” – e, de fato, a seca em São Paulo, já foi provado, é uma das consequências do desmatamento.

O contraponto dessa destruição, no livro, é a sequência de panoramas que o quadritone aproxima das paisagens do fotógrafo norte-americano Ansel Adams (1902-1984), especialmente as do Parque Nacional de Yosemite. “Sou um esteta, formado na escola de Stieglitz e Steichen”, admite Alcântara, ao se referir a dois fotógrafos que rimavam técnica com estética. Em 2015, o fotógrafo brasileiro vai ganhar a primeira retrospectiva de sua obra com curadoria de Eder Chiodetto e Rubens Fernandes Junior, mostra que deve evidenciar o parentesco com esses mestres do passado.

VEREDAS

Galeria de Babel. Al. Lorena, 1.257; telefone 3825-0507. 2ª a 6ª, 10 h/19 h; sáb., 11 h /17 h. Até 31/1. Sábado, 29, 12 h, abertura da exposição e lançamento do livro. Até 31/1.

(Fonte: O Estadão)

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A ideia é força motora da ação narrativa em ‘O Explicador’

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No livro de estreia, Leonardo Villa-Forte parte da tradição filosófica do século 18 em que a trama sai de um conceito

“Tudo é conteúdo; não há fogo de artifício.” Assim o escritor angolano-português Gonçalo M. Tavares apresenta, na contracapa, O Explicador, livro de estreia do carioca Leonardo Villa-Forte, composto por contos e poemas. Fazer equivaler a forma literária ao fogo de artifício, a “belezas laterais e inúteis”, é o procedimento de Tavares para elogiar um elemento de destaque nesta coletânea inicial de Villa-Forte: o fato de os textos, ora em verso, ora em prosa, terem na ideia sua matéria prima.

Muitas das 14 peças curtas que compõem O Explicador podem, de fato, filiar-se à tradição do conto filosófico – como o praticava Voltaire no século 18 – na qual, a ação, quando há, aparece a reboque de uma ideia ou conceito. Não se trata portanto do conto moderno, concebido por autores como Poe ou Chekhov, em que a ação tem lugar central.

O autor. Crítico, ele não se conforma com o mundo que o rodeia

As perguntas e ideias que movem os personagens de Villa-Forte são as do cotidiano, de quem não se conforma com o universo circundante. Assim, perguntam-se sobre o que é dado; tudo o que há ou se mova é passível de questionamento: o trabalho, a universidade, a subsistência, o corpo feminino, as ausências a um compromisso, a verdade do texto publicitário, o diálogo entre os casais etc.

Mas o “perguntador” – mais que “explicador” – de Villa-Forte, que aparece sob o véu de vários nomes, não é mero crítico da sociedade, é antes um homem doente de ideias, capaz de empenhar suas forças para discutir num restaurante vegetariano o caráter da frase que se lê no cartaz “A verdade está no verde, por isso é tão verdadeira” – da crônica Peça Publicitária; de sucumbir perante o desconhecido: “Sem encontrar resposta, começa a suar, mexe-se cada vez mais, sente enjoo e tontura: não sabe como reagir à chance de desejar por si mesmo” (no conto A Mulher que Não Soube Fantasiar).

A ideia move também os diálogos, totalmente intelectuais: “Querem ou não querem que eu explique os motivos dele não vir quando é chamado?” e “Que tal falar do motivo de alguém vir quando não é chamado?”, discutem palestrante e plateia no conto que dá título ao livro. Por vezes, remetem a Swift: “Sandra, quero fazer uma cirurgia de redução de estômago.” “Não precisa, Max. Você é magro. Nunca foi gordo.” “Não será uma cirurgia estética. Quero não precisar comer a mesma quantidade que venho comendo. Dessa forma, posso trabalhar menos” (em As Estratégias de Max). Villa-Forte mostra-se propenso a um humor mordaz.

Entretanto, as boas ideias no livro parecem não se acomodar a uma forma. Causa estranheza o excesso de gêneros – há diálogos, contos, poemas, crônicas. É quando cabe nos lembrar do radical alerta que o poeta Mallarmé fez ao pintor Degas acerca da escritura: “Meu caro Edgar, poemas não se fazem com ideias – mas com palavras”.

Há, sim, experiências de forma – de palavras – em Villa-Forte mas, paradoxalmente, elas parecem ser da ordem do fogo de artifício. Em O Jogo em que Victor se Irritou, há um pastiche da escrita matemática: “Perdido o jogo por conta da perna do anão ser do tamanho (perna normal)/2, o que Victor sentiu não foi uma chateação aliviada pela compreensão das diferenças entre os seres humanos. O que Victor sentiu foi (raiva x frustração)2”. O humor não parece funcionar, e a escrita matemática não conduz a parte alguma.

O exercício da forma não mostra a consecução de um estilo, nos termos que o define o português Herberto Helder: “um modo subtil de transferir a confusão e violência da vida para o plano mental de uma unidade de significação”. O que autor apresenta é uma coletânea de roteiros e, em certos lampejos, imagens, em meio a ideias, muitas ideias.

WILSON ALVES-BEZERRA É ESCRITOR, CRÍTICO LITERÁRIO E PROFESSOR DO DEPARTAMENTO DE LETRAS DA UFSCAR.

O EXPLICADOR

Autor: Leonardo Villaforte

Editora: Oito e Meio (88 págs., R$ 32)

(Fonte: O Estadão)

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Romance de estreia de autor sueco discute o pertencer

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Stephan Mendel-Enk aborda a tradição que se esfarela mas pesa sobre os jovens em ‘Três Macacos’

Existe uma progressão quase natural dentro da imigração no século 20, segundo Eric Hobsbawn propõe em Tempos Fraturados. A primeira geração busca sobreviver no novo país agarrada às raízes. A segunda é a da coexistência de duas culturas, ainda dentro das malhas da congregação, mas já ensaiando ou colocando em prática uma ruptura. A terceira é quase totalmente adaptada, geralmente a contragosto das anteriores (ou parte delas). Quando pensamos em imigração judaica, essa fricção é elevada a uma potência maior: o iídiche raramente vaza de gerações, a comunidade poucas vezes é grande o suficiente para absorver todas as expectativas – colégios, casamentos, negócios – e o peso da tradição conflita com o mundo real berrando na cabeça dos jovens. É isso que Stephan Mendel-Enk explora em Três Macacos (Editora Record), romance de estreia do escritor sueco.

Pelos olhos de um menino de 13 anos que vive em Gotemburgo, que se encontra nessa terceira geração, prestes a fazer seu bar mitzvah, acompanhamos os conflitos descritos em narrativa fragmentada e não linear. Estão lá a questão do casamento entre judeu e não judeu (a mãe abandona o pai para casar com um goy), as dúvidas sobre como se portar em certas situações dentro do rito, a relação com os familiares e amigos (judeus ou apenas suecos). Uma geração briga e influencia a outra, amalgamando alianças quebradiças.

Stephan Mendel-Enk

No romance de Mendel-Enk estamos em 1987, e os pais e avós falam de Israel, mas os filhos (e não secretamente os pais) sonham com os EUA. Os adolescentes estudam em colégios mistos, mas a tradição esmaga a cabeça das crianças – “Não posso enfatizar o suficiente a alegria que nos traz quando expressa seu desejo claro de construir um futuro judeu”, diz o avô ao neto Jacob que, com 13 anos, pensa em fazer a aliyah (volta a Israel) – e posteriormente desiste. Ao mesmo tempo, a tradição se esfarela – “Queria beijá-la, posso beijá-la? O que diz a Torá, Rafael?”, pergunta a mãe, no enterro da avó, para o irmão mais velho do menino, que foi efetivamente morar em Israel.

De certa forma, o que está em jogo no romance é pertencer. Enxergar no outro, nos outros, um semelhante para só então entender as diferenças. Como coloca Hannah Arendt, o ser humano só se reconhece como tal em contato com o outro, criando-se assim a necessidade de distinção; o ser humano expressa as diferenças e se torna singular. De certa forma, para pertencer é preciso em algum momento negar.

Mendel-Enk articula seu livro em capítulos breves, historietas importantes ou desimportantes, parece ele mesmo, o autor, incerto do que quer contar ou onde quer chegar, tateando pelas paredes de uma sala escura. Só parece. Para Jacob, o menino protagonista, o desenlace possível é o mundo. Os avós estão morrendo, a tradição se equilibrando quase num simulacro de (falta de) sentido e o pai fracassa ao lidar com a separação.

A literatura brasileira contemporânea também tem tratado o tema com interesse e, na comparação com o livro de Mendel-Enk, ganha no esmero da palavra e na enunciação com Michel Laub em Diário da Queda, e no humor escrachado de Jacques Fux em Antiterapias, para citar dois livros premiados. Mendel-Enk procura combinar os dois estilos e alcança bons platôs. No início, mesmo narrando um enterro e uma separação, o livro é leve, com boas pitadas de humor tão característico a prosa judaica. Mas à medida que o menino cresce, ruma para uma melancolia amarga que, embora com méritos reflexivos, casmurra para um trem que deixa Gotemburgo e a família (e por conseguinte a comunidade) para trás.

TRÊS MACACOS

Autor: Stephan Mendel-Enk

Editora: Record (160 págs., R$ 28)

Tradutor: Dina Lund

TRECHO:

“Tanto ela quanto meu avô falavam iídiche quando ficavam com raiva. Eu não gostava de iídiche. Havia alguma coisa constrangedora no idioma. A palavra para peido, por exemplo, é fortsch. Não entendia a ideia de ter uma palavra que soava tão repugnante quanto o fenômeno descrito. Fortsch.”

(Fonte: O Estadão)

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